{"id":1108,"date":"2009-04-28T11:11:14","date_gmt":"2009-04-28T09:11:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/so-tinhamos-as-nossas-proprias\/"},"modified":"2021-10-05T15:47:41","modified_gmt":"2021-10-05T13:47:41","slug":"so-tinhamos-as-nossas-proprias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/so-tinhamos-as-nossas-proprias\/","title":{"rendered":"S\u00f3 t\u00ednhamos as nossas pr\u00f3prias pessoas para dar&#8230;"},"content":{"rendered":"<p><em>No pref\u00e1cio do seu livro &#8220;Os pobres s\u00e3o a Igreja&#8221;, depois de evocar a sua inf\u00e2ncia no texto &#8220;Um rapazinho dentro do c\u00edrculo infernal da viol\u00eancia&#8221;, o Padre Joseph relata os in\u00edcios do Movimento.<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o fomos n\u00f3s os criadores, fomos simplesmente herdeiros. Houve outros, na Igreja contempor\u00e2nea, em Fran\u00e7a e no mundo inteiro, que lan\u00e7aram movimentos que iam ao encontro dos pobres, do povo dos exclu\u00eddos. Homens como o Abb\u00e9 Godin, o Padre Depierre, o Abb\u00e9 Pierre j\u00e1 abriram portas, j\u00e1 penetraram no mundo da mis\u00e9ria. Estamos no meio de uma corrente espiritual que tem mais a ver com a intelig\u00eancia do cora\u00e7\u00e3o do que com a das ideias, que j\u00e1 foi ao encontro dos pobres, de gente que vive na mis\u00e9ria. Trata-se de um movimento de luta pela paz, pelo p\u00e3o, de um combate pela justi\u00e7a, e todas as lutas, todos os combates convergem para um ponto constitu\u00eddo pela preocupa\u00e7\u00e3o causada pelo mais desprezado dos homens. N\u00e3o, n\u00e3o somos criadores, mas a mis\u00e9ria \u00e9 o motor das nossas ac\u00e7\u00f5es e talvez sejamos inovadores. Teremos n\u00f3s algo de original? Quando o Movimento de Ajuda a Toda a Desgra\u00e7a \u2013 Quarto Mundo come\u00e7ou, toda a sociedade, em geral, se sentia muito segura de si pr\u00f3pria. Toda a gente achava que o progresso, coadjuvado pela assist\u00eancia, ia suprimir a mis\u00e9ria de uma maneira autom\u00e1tica e inelut\u00e1vel, essa vit\u00f3ria era uma certeza. E num contexto destes, como \u00e9 que algu\u00e9m poderia acreditar, seja a que n\u00edvel fosse, naquilo que n\u00f3s diz\u00edamos sobre a mis\u00e9ria? Foi isso que nos complicou as coisas. J\u00e1 tinha sido neste mesmo contexto que o Abb\u00e9 Pierre tinha posto em evid\u00eancia a realidade das vidas dos que sofrem; o ATD \u2013 Quarto Mundo tentou fazer a mesma coisa relativamente \u00e0 fam\u00edlia, \u00e0s fam\u00edlias pobres. Havia nisto uma certa aud\u00e1cia, j\u00e1 que, naquela \u00e9poca, a sociedade se estava praticamente nas tintas para a fam\u00edlia. Ali\u00e1s, ainda hoje, nem os servi\u00e7os sociais, nem os poderes p\u00fablicos compreendem a nossa insist\u00eancia na no\u00e7\u00e3o de fam\u00edlia. E qual ser\u00e1 a raz\u00e3o dessa insist\u00eancia? \u00c9 que a fam\u00edlia \u00e9 o \u00fanico ref\u00fagio do homem quando tudo o resto vem a faltar; s\u00f3 a\u00ed \u00e9 que ainda h\u00e1 algu\u00e9m para o acolher, s\u00f3 a\u00ed \u00e9 que ele se sente algu\u00e9m. \u00c9 no seio da fam\u00edlia que permanece a sua pr\u00f3pria identidade. Todos os seus, os filhos, a mulher, a companheira\u2026 s\u00e3o eles o seu \u00faltimo espa\u00e7o de liberdade. Mesmo se lhes tiraram os filhos, tanto o homem como a mulher se referem constantemente a esses seres por eles procriados. Ora, quando n\u00f3s insist\u00edamos na import\u00e2ncia desta realidade que \u00e9 a fam\u00edlia, toda a gente achava que est\u00e1vamos completamente ultrapassados, que essa hist\u00f3ria pertencia ao passado, e sofremos imenso com essa reac\u00e7\u00e3o. Mas n\u00e3o nos deix\u00e1mos abalar. Aquilo que foi determinante no Movimento, e isso logo desde o princ\u00edpio, \u00e9 que a \u00fanica coisa que t\u00ednhamos para dar eram as nossas pr\u00f3prias pessoas. N\u00e3o \u00e9ramos donos de nada, n\u00e3o faz\u00edamos parte de nenhuma associa\u00e7\u00e3o que atribu\u00edsse alojamentos sociais, n\u00e3o \u00e9ramos sequer funcion\u00e1rios de nenhum servi\u00e7o de assist\u00eancia. S\u00f3 t\u00ednhamos o corpo para dar ao manifesto, s\u00f3 t\u00ednhamos os cora\u00e7\u00f5es que batiam nos nossos peitos. E foi precisamente porque n\u00e3o t\u00ednhamos nada, foi a nossa falta de meios total que fez com que f\u00f4ssemos aceites pelas fam\u00edlias mais desfavorecidas. N\u00e3o t\u00ednhamos nenhum poder, nem pol\u00edtico nem social, n\u00e3o t\u00ednhamos nenhum apoio, nem sequer a garantia de uma religi\u00e3o. V\u00ednhamos de m\u00e3os vazias, e, descal\u00e7os, cheg\u00e1vamos at\u00e9 ao cora\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria. O nosso \u00fanico objectivo era o Homem, a promo\u00e7\u00e3o do Homem. Eram as fam\u00edlias que viviam na mais extrema pobreza que tinham que defender os seus iguais \u2013 desde o in\u00edcio, foi esse o nosso desejo. N\u00f3s v\u00ednhamos praticamente do nada, n\u00e3o t\u00ednhamos rela\u00e7\u00f5es, est\u00e1vamos completamente ligados \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de indig\u00eancia total daquelas fam\u00edlias. A grande maioria delas nada conhecera a n\u00e3o ser a mis\u00e9ria, a ignor\u00e2ncia, a doen\u00e7a, o desemprego, e, sempre, claro est\u00e1, a rejei\u00e7\u00e3o e a exclus\u00e3o. Quer\u00edamos que o militantismo destas fam\u00edlias funcionasse como uma cau\u00e7\u00e3o para que a sociedade as reinserisse no seu seio, aparecendo elas como respons\u00e1veis por si pr\u00f3prias, pelos filhos, pela sua pr\u00f3pria vida, pela sua palavra. Esse militantismo tinha o objectivo de testemunhar sobre as possibilidades de cada homem: nunca se pode dizer que um homem est\u00e1 acabado. Se os mais pobres pudessem viver em conviv\u00eancia com outros, sentindo-se apoiados por uma certa solidariedade, apesar de viverem mergulhados na mis\u00e9ria; se o subproletariado fosse capaz de afirmar que o consumo e os ganhos podiam n\u00e3o ser os \u00fanicos motores da vida e da sociedade, ent\u00e3o um mundo novo, uma mudan\u00e7a radical de perspectiva seriam propostos a cada pessoa. O que n\u00f3s prop\u00fanhamos era uma nova forma de relacionamento, um objectivo novo para as nossas lutas. Mas quantas dificuldades para que tal projecto se pudesse realizar! \u00c9 que a sociedade rica, abastada, n\u00e3o queria ou j\u00e1 n\u00e3o conseguia ver a mis\u00e9ria, julgando e afirmando t\u00ea-la destru\u00eddo. Tivemos que ser n\u00f3s as testemunhas daquilo que ouv\u00edamos, v\u00edamos e viv\u00edamos. E n\u00e3o bastava proclamar o nosso testemunho com os nossos cora\u00e7\u00f5es; ele tinha que ser acess\u00edvel \u00e0 compreens\u00e3o e ao entendimento dos homens daquela \u00e9poca. Foi esta necessidade que levou o Movimento a criar o Instituto de Investiga\u00e7\u00e3o, e, assim, pudemos afirmar, com provas na m\u00e3o: os extremamente pobres n\u00e3o s\u00f3 existem, n\u00e3o s\u00f3 vivem no meio de n\u00f3s todos, mas s\u00e3o tamb\u00e9m testemunhas, atrav\u00e9s de tudo o que lhes fazeis suportar, de todas as vossas infidelidades \u00e0s convic\u00e7\u00f5es e ideais que proclamais, \u00e0s declara\u00e7\u00f5es que fazeis. A cria\u00e7\u00e3o do Instituto de Investiga\u00e7\u00e3o constituiu um acto pol\u00edtico, na plena acep\u00e7\u00e3o do termo \u2013 denunciou, apresentando provas, e prop\u00f4s. Tamb\u00e9m provou que a popula\u00e7\u00e3o francesa era capaz de reunir gente de todos os meios para trabalhar por uma causa justa, a fim de fazer com que os mais desfavorecidos assumissem as suas responsabilidades. E demonstrou que o facto de impedir as fam\u00edlias pobres de assumirem a sua responsabilidade familiar, social, pol\u00edtica e religiosa, ia contra os direitos humanos.<\/p>\n<p>Outro ponto que \u00e9 preciso sublinhar \u00e9 que, perante uma sociedade rica que tenta negar a exist\u00eancia da mis\u00e9ria, o Movimento quis, logo \u00e0 partida, ser interconfessional e interpol\u00edtico\u2026 mas n\u00e3o aconfessional e apol\u00edtico, o que \u00e9 completamente diferente. J\u00e1 sabia, por experi\u00eancia pr\u00f3pria, que os cat\u00f3licos, e os crentes em geral, t\u00eam muita sorte: a educa\u00e7\u00e3o que receberam leva-os a amar o pr\u00f3ximo. E, ao encontrar uma por\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es incapazes de lutar pela liberta\u00e7\u00e3o dos mais pobres, apesar de toda a sua boa vontade, pensei que era preciso oferecer a todos os homens a sorte que n\u00f3s, crist\u00e3os, j\u00e1 t\u00ednhamos. Eu achava que era justo e normal que todo e qualquer homem, fossem quais fossem as suas ideias, a sua f\u00e9, a sua cultura, pudesse descer at\u00e9 aos que est\u00e3o no mais baixo degrau da escala social. Ora, custa a imaginar como isso \u00e9 dif\u00edcil para quem n\u00e3o tem o privil\u00e9gio de viver no meio em que n\u00f3s vivemos, n\u00f3s que fazemos parte de uma Igreja. Cada homem deveria poder encarar a mais pobre das fam\u00edlias como um p\u00f3lo de encontro, um agente da liberta\u00e7\u00e3o dos outros homens, como uma fam\u00edlia que pode salvar os seus irm\u00e3os. Custa-nos a entender o sofrimento, perante a mis\u00e9ria, daqueles que nunca, desde pequeninos, souberam o que \u00e9 um olhar virado para os outros, para o mais miser\u00e1vel dos outros, para aquele com quem Cristo se identificou totalmente e sem reserva. A este n\u00edvel, tamb\u00e9m muitas vezes n\u00e3o nos damos perfeitamente conta de quanto devemos \u00e0 Igreja. A nossa primeira volunt\u00e1ria francesa, que \u00e9 agn\u00f3stica, continua a ter como \u00fanicas armas, face \u00e0 mis\u00e9ria, o seu amor pela justi\u00e7a e a sua profunda humanidade. O fracasso de certas fam\u00edlias mina-a e destr\u00f3i-a. N\u00e3o consegue ultrapass\u00e1-lo nem aceit\u00e1-lo, porque, para ela nada existe para al\u00e9m do fracasso. Mas, quando eu digo que a interconfessionalidade \u00e9 um acto de justi\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0queles que n\u00e3o tiveram a sorte de terem sido criados com o olhar virado para os outros, n\u00e3o ponho nesta afirma\u00e7\u00e3o nenhuma sufici\u00eancia. H\u00e1 em todos os homens uma parcela de ternura que tem que ser trazida \u00e0 luz do dia, que tem de ser activada, e essa ternura precisa de ser educada desde a mais tenra idade. Esse acto de miseric\u00f3rdia que \u00e9 constitu\u00eddo pela necessidade de partilhar com o outro, de se identificar com o outro, sofrendo com ele profundamente, interiorizando o seu sofrimento, e transformando esse mesmo sofrimento em esperan\u00e7a, esse acto s\u00f3 pode ser o fruto de uma educa\u00e7\u00e3o ou de uma convers\u00e3o. No Movimento, n\u00f3s tratamos de cuidar do homem directamente, sem passarmos por nenhum servi\u00e7o, por nenhum organismo. Quando n\u00e3o se \u00e9 limitado, quando n\u00e3o se est\u00e1 fechado dentro de uma organiza\u00e7\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel viver um projecto de sociedade que dependa de outrem, que dependa daquele com quem o quisermos partilhar. E \u00e9 assim que ser\u00e1 poss\u00edvel instalar a mais pobre das fam\u00edlias no cora\u00e7\u00e3o do mundo, no centro do mundo. Fazer do mais desfavorecido dos homens o centro da humanidade \u00e9 como abra\u00e7ar a totalidade dessa humanidade num s\u00f3 homem. N\u00e3o se trata de limitar o olhar, nem de reduzir a vis\u00e3o, mas, pelo contr\u00e1rio, de lan\u00e7ar esse olhar para al\u00e9m das fronteiras do amor. E, como o amor n\u00e3o conhece fronteiras, \u00e9 imposs\u00edvel tranc\u00e1-lo, domin\u00e1-lo, o amor \u00e9 sempre uma loucura. \u00c9 necess\u00e1rio, logo \u00e0 partida, ter a aud\u00e1cia de assimilar o mais pobre dos homens a Jesus Cristo: lembrarmo-nos de que eles s\u00e3o uma \u00fanica e mesma pessoa. \u00c0 partida, n\u00e3o poderemos nunca p\u00f4r de lado nenhum homem, rico ou pobre, respons\u00e1vel pela sua pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o ou v\u00edtima de outrem. Quando se trata de Amor, as fronteiras desaparecem. Toda a gente faz parte da mesma humanidade, o destino final de n\u00f3s todos \u00e9 o mesmo. Quando enfim cheguei ao bairro de urg\u00eancia de Noisy-le-Grand, disse para comigo: estas fam\u00edlias, mergulhadas na mis\u00e9ria, n\u00e3o poder\u00e3o nunca levantar a cabe\u00e7a sozinhas, mas eu hei-de fazer com que elas subam as escadas do Pal\u00e1cio presidencial do Eliseu, do Vaticano, da ONU e de todas as grandes organiza\u00e7\u00f5es internacionais. \u00c9 essencial que elas passem a ser inteiramente associadas \u00e0s decis\u00f5es que lhes dizem respeito. Que rid\u00edculo! &#8211; dir\u00e3o alguns \u2013 Tudo isso \u00e9 fruto de uma imagina\u00e7\u00e3o delirante, que se descontrolou no meio daquele \u00e1rido planalto de Noisy, no Ver\u00e3o de 1956! Mas quando Cristo, no G\u00f3lgota, via o mundo do alto da sua cruz, j\u00e1 o tinha vencido. Quando algu\u00e9m coloca o mais pobre dos homens no centro do seu campo visual, esse algu\u00e9m tem for\u00e7osamente que ver tudo, a sua vis\u00e3o abrange for\u00e7osamente todos os homens, n\u00e3o deixa nenhum de fora. De uma certa maneira, esse algu\u00e9m tamb\u00e9m poder\u00e1 afirmar que j\u00e1 venceu o mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: right\">Padre Joseph Wresinski<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No pref\u00e1cio do seu livro &#8220;Os pobres s\u00e3o a Igreja&#8221;, depois de evocar a sua inf\u00e2ncia no texto &#8220;Um rapazinho (&#8230;) <a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/so-tinhamos-as-nossas-proprias\/\">Read more <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3089,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"ep_exclude_from_search":false,"footnotes":""},"categories":[59],"tags":[],"class_list":["post-1108","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-portugues"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.0 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>S\u00f3 t\u00ednhamos as nossas pr\u00f3prias pessoas para dar... - Joseph Wresinski EN<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/so-tinhamos-as-nossas-proprias\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"en_US\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"S\u00f3 t\u00ednhamos as nossas pr\u00f3prias pessoas para dar... - Joseph Wresinski EN\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"No pref\u00e1cio do seu livro &#8220;Os pobres s\u00e3o a Igreja&#8221;, depois de evocar a sua inf\u00e2ncia no texto &#8220;Um rapazinho (...) 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