{"id":1109,"date":"2009-04-28T11:06:46","date_gmt":"2009-04-28T09:06:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/um-rapazinho-dentro-do-circulo\/"},"modified":"2021-10-05T15:38:59","modified_gmt":"2021-10-05T13:38:59","slug":"um-rapazinho-dentro-do-circulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/um-rapazinho-dentro-do-circulo\/","title":{"rendered":"Um rapazinho dentro do c\u00edrculo infernal da viol\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>A mais antiga recorda\u00e7\u00e3o da minha inf\u00e2ncia \u00e9 uma sala de hospital muito comprida e a minha m\u00e3e a gritar com a freira que tomava conta de n\u00f3s. Como eu era uma crian\u00e7a enfezada, com raquitismo, tinham-me levado para o hospital para me endireitarem as pernas. Naquele dia, tinha dito \u00e0 minha m\u00e3e que as Irm\u00e3s n\u00e3o me tinham dado o embrulho que ela me tinha mandado no domingo anterior. A minha m\u00e3e, que tinha com certeza arranjado com muita dificuldade aquelas pobres guloseimas, ficou furiosa. Arrancou-me imediatamente das m\u00e3os das freiras e levou-me para casa. Foi assim que fiquei com as pernas tortas e que durante toda a minha juventude me senti rid\u00edculo e tive de aturar as gra\u00e7olas provocadas por essa defici\u00eancia. E o facto de mancar ligeiramente tamb\u00e9m me incomodou, sobretudo durante a adolesc\u00eancia. Foi tamb\u00e9m por isso que o primeiro contacto com os outros que me ficou na mem\u00f3ria foi marcado por uma injusti\u00e7a e por um preju\u00edzo que iriam estigmatizar o meu corpo durante toda a minha vida. Talvez seja por essa raz\u00e3o que todos esses narizes ranhosos, essas pernas bambas, esses corpos jovens e j\u00e1 feridos que me rodeiam agora nos bairros sociais, nos barracos, nos bairros degradados, se me tenham tornado insuport\u00e1veis. N\u00e3o me admirou a minha m\u00e3e a gritar com a Irm\u00e3. Aos gritos, estava eu j\u00e1 bem habituado. L\u00e1 em casa, o meu pai estava sempre a gritar. Batia no meu irm\u00e3o mais velho e a minha m\u00e3e ficava desesperada porque lhe dava sempre na cabe\u00e7a. Tamb\u00e9m insultava a minha m\u00e3e e and\u00e1vamos sempre cheios de medo. S\u00f3 muito mais tarde, j\u00e1 homem feito, quando comecei a viver com outros como ele, com outras fam\u00edlias como a nossa, \u00e9 que percebi que o meu pai era um homem humilhado. Ele sofria por ter falhado na vida: trazia nele a vergonha de n\u00e3o ter podido dar aos seus nem seguran\u00e7a, nem felicidade. O mal da mis\u00e9ria \u00e9 este mesmo. Um homem n\u00e3o pode viver assim humilhado sem reagir. E o homem pobre, hoje como ontem, reage da mesma maneira violenta. Mas claro que isso introduzia o rapazinho que eu era no c\u00edrculo infernal da viol\u00eancia. A viol\u00eancia era a \u00fanica possibilidade de reagir aos obst\u00e1culos, \u00e0s dificuldades quotidianas de toda a esp\u00e9cie. E sem que disso tivesse consci\u00eancia,ela estava a tornar-se para mim, como para o meu pai, na maneira de me limpar das in\u00fameras humilha\u00e7\u00f5es que a nossa extrema pobreza nos acarretava. O que me espanta ainda hoje, depois destes anos todos, \u00e9 que os meus pais s\u00f3 falavam de dinheiro. Eles,que n\u00e3o tinham nenhum, estavam sempre a pegar-se por causa dele. E quando aparecia algum l\u00e1 em casa, discutiam sobre a maneira de o gastar. Mais tarde, quando a minha m\u00e3e ficou sozinha, era tamb\u00e9m de dinheiro que ela nos falava sempre. E quando nos falava das pessoas que conhec\u00edamos, era sempre para dizer que eram ricas. Os padres da par\u00f3quia, dizia ela, \u00abs\u00e3o ricos\u00bb. At\u00e9 a pobre merceeira l\u00e1 do bairro era rica para ela. Mas isto n\u00e3o quer dizer que a minha m\u00e3e fosse invejosa. O que acontece \u00e9 que quando as pessoas t\u00eam falta de tudo, s\u00f3 conta aquilo que poderia vir a matar alguma fome. Nos tristes e cinzentos sub\u00farbios que rodeiam as nossas cidades \u00e9 sempre assim: os interesses, as disputas, as trocas, gira sempre tudo \u00e0 roda do dinheiro.<\/p>\n<p>Alistaram-me bem cedo neste combate para arranjar de comer. Tinha eu quatro anos e j\u00e1 levava a cabra a pastar. Era essa cabra que nos alimentava, \u00e0 minha irm\u00e3zinha rec\u00e9m-nascida e a todos os outros irm\u00e3os. Quando a levava para o pasto, passava diante do port\u00e3o do convento do Bom-Pastor e, \u00e0s vezes, uma freira punha-se a falar comigo. Um dia, perguntou-me se eu n\u00e3o queria ir ajudar \u00e0 missa todas as manh\u00e3s. Foi nesse dia que me contrataram pela primeira vez. Pois, para mim, era mesmo de um contrato que se tratava. Se fosse ajudar \u00e0 missa, iam-me dar cada manh\u00e3 uma grande tigela de caf\u00e9 com leite, com p\u00e3o, compota, e at\u00e9 com manteiga, nos dias de festa. Al\u00e9m disso receberia dois francos por semana. Foram os dois francos que me convenceram. E aqui est\u00e1 como, antes de fazer cinco anos, comecei eu a encarregar-me da minha fam\u00edlia. A minha m\u00e3e chamava-me todas as manh\u00e3s, durante quase onze anos, para a missa das sete. Levava pelo menos dez minutos para correr at\u00e9 \u00e0 capela, por detr\u00e1s dos grandes muros do convento. De Inverno, tinha frio e tinha medo da escurid\u00e3o. Mas, quer chovesse, quer ventasse, todo encolhidinho, perdido de sono, mas tamb\u00e9m \u00e0s vezes cheio de raiva, eu tinha que ir pela comprid\u00edssima rua de Saint-Jacques, descer a rua Brault, deserta e hostil, a caminho dos campos, e ir ajudar \u00e0 missa no convento das freiras, para que elas dessem cinco mil reis \u00e0 minha m\u00e3e. Acho que nunca faltei a este compromisso matinal e tenho ainda hoje a impress\u00e3o de que toda a minha inf\u00e2ncia girou \u00e0 volta dele. Muita fome devia ter a minha m\u00e3e para ter deixado que me atirassem, t\u00e3o pequeno, todos os dias para a rua. E eu devia ter consci\u00eancia do seu desespero, para ter aceitado aquela servid\u00e3o, sem ficar definitivamente amargurado e sem me revoltar contra Deus. Ali\u00e1s, pouco depois, tive que seguir aquele mesmo caminho, ida e volta, \u00e0 hora do almo\u00e7o. Como \u00e9ramos os mais pobres do bairro, n\u00e3o \u00e9 de espantar que, depois da escola, eu tivesse que correr de novo at\u00e9 ao convento, desta vez para trazer, em lancheiras ou em latas de conserva, as refei\u00e7\u00f5es, que consistiam no que comiam as freiras. Ervilhas secas, lentilhas, batatas, \u00e0s vezes uns bocaditos de carne, era o que me davam as Irm\u00e3s Madeleine, juntamente com um p\u00e3o enorme, que era o que mais nos enchia a barriga l\u00e1 em casa. Foi assim que todos os dias da minha inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia foram guiados pela vida das freiras do Bom-Pastor, sustentados pelas suas ora\u00e7\u00f5es e pela comida que nos davam para n\u00e3o passarmos muita fome. Penso \u00e0s vezes nisto tudo quando, agora, observo os mi\u00fados que trepam pelas lixeiras acima ou que v\u00e3o atr\u00e1s do pai que empurra um carrinho de m\u00e3o para ir esvaziar uma cave ou um s\u00f3t\u00e3o qualquer. Eles fazem de farrapeiros e tamb\u00e9m recuperam peda\u00e7os de ferro-velho; e eu ajudava \u00e0 missa e ia buscar a nossa comida \u00e0 porta do convento. Nos dias de hoje, como nos da minha inf\u00e2ncia, as crian\u00e7as pobres n\u00e3o t\u00eam inf\u00e2ncia; as responsabilidades caem-lhes em cima logo que aprendem a andar. Mas com certeza que, como acontece com as crian\u00e7as pobres de hoje, havia alturas em que eu tamb\u00e9m brincava e ria. Com certeza que arranjava cantinhos e esconderijos muito meus, que tinha os meus pr\u00f3prios percursos, ignorados de todos, nesse velho bairro de Angers, onde com os amigos arquitectava labirintos. O pior era aquele percurso do convento que tinha de percorrer cada dia, o percurso que era a vergonha da minha inf\u00e2ncia e que apagou da minha mem\u00f3ria tudo o que nela me poder\u00e1 ter acontecido de bom e consolador. E houve outros caminhos e percursos que me envergonhavam, sempre ligados \u00e0 omnipresente necessidade de comida, omnipresente. Revejo-me, rapazinho ainda, a ter de levar outra vez \u00e0 mercearia a garrafa de \u00f3leo de nozes que pedira que me enchessem com cinquenta c\u00eantimos do dito \u00f3leo. Se ela n\u00e3o estivesse cheia at\u00e9 \u00e0 rolha, a minha m\u00e3e obrigava-me a l\u00e1 voltar para a merceeira acrescentar as duas ou tr\u00eas gotas que faltavam \u2013 eterno e humilhante combate dos pobres para tentarem matar a fome. Mais tarde, tamb\u00e9m tinha que voltar ao talho com os peda\u00e7os de carne de cavalo que eram duros demais. \u00c9 que, aos sete anos, eu j\u00e1 tinha arranjado outro emprego: ia fazer as compras para a Marie-Louise, a mulher do carniceiro, que me pagava dando-me, praticamente todos os dias, dois francos de carne de cavalo. Ora a minha m\u00e3e exigia que essa carne fosse fresca e tenra. E nunca hesitava em mandar-me ir l\u00e1 outra vez para devolver a carne dura e reclamar uma melhor qualidade para a nossa mesa. Sofr\u00edamos vergonhas mas, em contrapartida, t\u00ednhamos for\u00e7a, e muitas vezes vinguei-me a murro, inconscientemente, daquela servid\u00e3o esmagadora de ter que alimentar a fam\u00edlia. Lembro-me de ter esborrachado, tinha eu seis anos, um advers\u00e1rio do meu tamanho. Quando a minha m\u00e3e foi ter com a freira do jardim-de-inf\u00e2ncia para saber se eu podia ir para a escola prim\u00e1ria, ela disse logo. \u00abPode ir, pode, que ele aqui bate nos outros todos\u00bb. E foi assim que, desde muito cedo, se conjugaram na minha vida a falta de dinheiro, a vergonha e a viol\u00eancia.<\/p>\n<p>N\u00e3o me lembro de algum dia ter voltado da escola e de ter encontrado a minha m\u00e3e bem-disposta ao chegar a casa. Como tinha sido abandonada, n\u00e3o se conseguia habituar a ter que carregar sozinha com o peso de quatro filhos. E, para al\u00e9m de tudo o mais, as not\u00edcias do meu pai que nunca chegavam, nem o dinheiro que ele devia enviar &#8211; era isso o mais angustiante. E o g\u00e1s que era preciso pagar, o carv\u00e3o a comprar no Inverno, o fog\u00e3o estragado que era preciso trocar\u2026 T\u00ednhamos quase sempre frio l\u00e1 em casa. A velha forja onde mor\u00e1vamos estava cheia de correntes de ar. O ar passava por debaixo das portas, pelas frinchas das paredes. Uma destas \u201cparedes\u201d era feita de caixotes cobertos de papel de embrulho. Quando o papel se rasgava, o ar entrava e fic\u00e1vamos transidos de frio. Tamb\u00e9m t\u00ednhamos frio porque todos os apartamentos que ficavam por cima do nosso eram ligados pelo mesmo cano de chamin\u00e9. Ora este cano estava sempre a entupir-se, e, quando acend\u00edamos o lume, a Teresa, filha do alfaiate, vinha c\u00e1 abaixo insultar a minha m\u00e3e porque o fumo lhe entrava em casa. Para n\u00e3o criar mais problemas, a minha m\u00e3e tirava ent\u00e3o do fog\u00e3o os peda\u00e7os de carv\u00e3o que t\u00ednhamos ido buscar aos montes de entulho da f\u00e1brica de g\u00e1s. Esses peda\u00e7os de carv\u00e3o que nos tinham custado tanto a arranjar, e que mais pareciam aumentar o frio l\u00e1 de casa em vez de o fazerem desaparecer, t\u00e3o pobrezinhos eram. Ser\u00e1 poss\u00edvel explicar esta passividade da minha m\u00e3e que volto a encontrar, ainda hoje, t\u00e3o frequentemente em tantas pobres m\u00e3es que vivem em lugares miser\u00e1veis? Esse seu temor de ficar de mal com os vizinhos vinha, sem d\u00favida, do seu cansa\u00e7o, mas, mais ainda, do seu medo. A minha m\u00e3e sabia que era estrangeira e vivia sempre com a ang\u00fastia de que a recambiassem outra vez para Espanha e que a pol\u00edcia nos viesse apanhar, sabe l\u00e1 Deus porqu\u00ea. \u00c9 assim que todas as m\u00e3es dos bairros de refugiados vivem sempre aterrorizadas, com a possibilidade de que lhes venham fazer algum mal. Mas, voltando \u00e0quela Teresa, filha do alfaiate: uma vez, era eu ainda mi\u00fado, agarrei no ferro de ati\u00e7ar o lume e ameacei-a aos gritos. J\u00e1 nem sei o que me ditou nessa altura aquela minha raiva infantil, mas a verdade \u00e9 que, a partir da\u00ed, o nosso pobre lume p\u00f4de continuar a arder no velho fog\u00e3o que tinha a fornalha rebentada, tendo n\u00f3s que lhe tapar constantemente as rachas com a argila que apanh\u00e1vamos nos campos das redondezas. A minha m\u00e3e passava a vida a queixar-se a toda a gente de tudo o que a consumia. Queixava-se de mim, das preocupa\u00e7\u00f5es que eu lhe trazia, dizia que eu andava atrasado na escola, que ainda molhava a cama. E isso era mais uma vergonha que me ca\u00eda em cima. Eu sabia que todo o bairro estava a par das minhas mis\u00e9rias. Os pobres n\u00e3o costumam esconder as suas mazelas, n\u00e3o t\u00eam for\u00e7a para dissimular as dificuldades de uma exist\u00eancia que os esgota. No entanto, foi gra\u00e7as \u00e0 minha m\u00e3e que fiz o exame da quarta classe. Naquele col\u00e9gio onde eu andava, \u00e9ramos muito poucos os que n\u00e3o pag\u00e1vamos e \u00e9ramos tamb\u00e9m os piores da aula. \u00c9 por isso que, quando chegaram as provas que marcavam o fim da instru\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, o director n\u00e3o queria arriscar-se a levar-me ao exame. J\u00e1 n\u00e3o tinha levado o meu irm\u00e3o mais velho e a minha m\u00e3e n\u00e3o tinha ligado. Mas, quando chegou a minha vez, n\u00e3o se resignou. Ela sabia que eu era esperto, sabia tamb\u00e9m que eu carregava com responsabilidades demais, com sofrimentos demais e que sofria demais com as injusti\u00e7as. Pois para n\u00f3s, que viv\u00edamos da caridade dos outros, mas que nunca receb\u00edamos aquilo a que t\u00ednhamos direito, as injusti\u00e7as eram o p\u00e3o-nosso de cada dia. A minha m\u00e3e n\u00e3o quis que me fosse infligida mais uma. Foi ela que me matriculou e me apresentou ao exame de quarta classe. S\u00f3 hoje \u00e9 que fiquei a saber de quanta indigna\u00e7\u00e3o e de quanta coragem precisou a minha m\u00e3e para assim defender os filhos. Tamb\u00e9m me defendeu, obstinadamente, sem ceder um mil\u00edmetro, quando as senhoras da confer\u00eancia, l\u00e1 da par\u00f3quia, resolveram que eu havia de ir para os \u201c\u00d3rf\u00e3os de Auteuil\u201d. Era um projecto que poderia parecer razo\u00e1vel, mas que era terrivelmente humilhante para as crian\u00e7as nascidas no meio da mis\u00e9ria e para as m\u00e3es delas, pois fazia com que elas fossem criadas e educadas pondo-as \u00e0 margem de todas as outras. Num daqueles sobressaltos de dignidade que t\u00e3o bem lhe conhecia, a minha m\u00e3e recusou. Antes queria renunciar \u00e0 benefic\u00eancia das obras paroquiais. Mas a verdade \u00e9 que \u00e0 margem dos outros j\u00e1 n\u00f3s est\u00e1vamos. Como \u00e9ramos pobres demais, punham-nos de lado no nosso bairro popular. O que nos ligava aos outros n\u00e3o era a amizade, eram as esmolas. Mas n\u00e3o \u00e9ramos os \u00fanicos. Lembro-me de uma mulher que estava sempre b\u00eabeda e de um filho natural que ela tinha. Quando ele regressava a casa, \u00e0 noite, dava com a m\u00e3e estendida no meio da cozinha, arrastava-a at\u00e9 \u00e0 cama e deitava-a. \u00c0s vezes ia at\u00e9 l\u00e1 em casa e a minha m\u00e3e sentava-o connosco \u00e0 mesa, divid\u00edamos o p\u00e3o e a sopa com ele. Havia tamb\u00e9m a bruxa. N\u00e3o queria que os c\u00e3es parassem debaixo da janela dela. Ent\u00e3o n\u00f3s, canalha mi\u00fada, serv\u00edamo-nos da parede de casa dela como de um urinol e ela insultava-nos. Gost\u00e1vamos dela, era por isso que a chate\u00e1vamos. Nunca nos ter\u00edamos ido meter com o carniceiro R\u00e9tif, nem com o marceneiro Cesbron. \u00c9 que eles eram as pessoas importantes l\u00e1 do bairro, n\u00e3o faziam parte do nosso mundo. Um dia, deram com a bruxa morta de fome no barraco. Ningu\u00e9m se tinha lembrado dela durante os \u00faltimos quinze dias. Naquela noite, a minha m\u00e3e chorou, que aquilo podia tamb\u00e9m ter acontecido connosco. \u00abQuem \u00e9 que se ia importar connosco, dizia ela, ainda hei-de morrer assim.\u00bb Ter\u00e1 s do ela quem me ensinou a lutar? Agora j\u00e1 n\u00e3o luto para me vingar das humilha\u00e7\u00f5es, mas sim para libertar o povo dos exclu\u00eddos. Uma vez, um dos maiores l\u00e1 da escola \u2013 chamava-se Sich\u00e9 \u2013 enfureceu-se contra um puto muito mais fraco do que ele. Encostou-o \u00e0 parede das retretes e atacou-o a murro e a pontap\u00e9. Que se ter\u00e1 passado comigo? Atirei-me a ele e tamb\u00e9m o esmurrei valentemente. Arranhei-lhe a cara toda e o mestre teve que me arrastar dali \u00e0 for\u00e7a. Por que ser\u00e1 que eu fiz aquilo? Aquele mi\u00fado fraquito n\u00e3o me era nada, porque \u00e9 que me ter\u00e1 dado para o defender? Ora foi ele que me ficou gravado na mem\u00f3ria, e n\u00e3o o castigo que por causa dele me deram. Fui expulso da escola; mas quase n\u00e3o me lembro das consequ\u00eancias daquela luta monumental. O que ficou impresso em mim como um momento essencial da minha vida foi aquele rapazito que levava pancada de um Sich\u00e9 muito mais forte do que ele. Se me n\u00e3o engano, foi aquele momento o ponto de partida de um combate que talvez perca, mas que prosseguirei teimosamente durante toda a minha vida.<\/p>\n<p>\u00c9 que isto de combater pelos que foram rejeitados pela sociedade n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o simples. Ningu\u00e9m se transforma em militante para defender um certo n\u00famero de indiv\u00edduos determinados: uma m\u00e3e sempre b\u00eabeda, uma bruxa, um garoto fraquitolas, um fulano aqui, outro acol\u00e1. Foi preciso que me apercebesse que eles constitu\u00edam um povo, que descobrisse que eu pr\u00f3prio fazia parte desse povo, e que mais tarde, j\u00e1 adulto, me revisse nos mi\u00fados dos bairros de lata da periferia das nossas cidades, nos jovens sem trabalho que choram de raiva. S\u00e3o eles que perpetuam a mis\u00e9ria da minha inf\u00e2ncia e que me falam da perenidade de todo um povo esfarrapado. Ora n\u00f3s temos a possibilidade de acabar com essa perenidade. A mis\u00e9ria deixar\u00e1 de existir, um dia, se nos dispusermos a ajudar esses jovens a convencerem-se de que fazem parte de um povo, se os ajudarmos a transformar a viol\u00eancia num combate l\u00facido, se lhes dermos as armas do amor, da esperan\u00e7a e do saber, para eles poderem levar a cabo a luta contra a ignor\u00e2ncia, contra a fome, contra as esmolas e contra a exclus\u00e3o. E nada disto \u00e9 s\u00f3 com o governo, pois tudo isto diz respeito a todos aqueles que aceitarem acompanhar os rejeitados, que aceitarem ligar a sua vida \u00e0 deles e que estiverem dispostos, por vezes, a largar tudo para partilharem a sua sorte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A mais antiga recorda\u00e7\u00e3o da minha inf\u00e2ncia \u00e9 uma sala de hospital muito comprida e a minha m\u00e3e a gritar (&#8230;) <a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/um-rapazinho-dentro-do-circulo\/\">Read more <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3664,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"ep_exclude_from_search":false,"footnotes":""},"categories":[59],"tags":[],"class_list":["post-1109","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-portugues"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.0 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Um rapazinho dentro do c\u00edrculo infernal da viol\u00eancia - Joseph Wresinski EN<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/um-rapazinho-dentro-do-circulo\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"en_US\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Um rapazinho dentro do c\u00edrculo infernal da viol\u00eancia - Joseph Wresinski EN\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"A mais antiga recorda\u00e7\u00e3o da minha inf\u00e2ncia \u00e9 uma sala de hospital muito comprida e a minha m\u00e3e a gritar (...) 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