{"id":1111,"date":"2006-04-27T22:46:58","date_gmt":"2006-04-27T20:46:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/encontros-com-o-padre-joseph\/"},"modified":"2017-04-11T13:51:04","modified_gmt":"2017-04-11T11:51:04","slug":"encontros-com-o-padre-joseph","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/encontros-com-o-padre-joseph\/","title":{"rendered":"Encontros com o Padre Joseph Wresinski"},"content":{"rendered":"<h2>Entrevista de Claudine Faure, em Outubro de 1987<\/h2>\n<p>Claudine : Padre Joseph, pode explicar-me o que \u00e9 a mis\u00e9ria ?<\/p>\n<p>Padre Joseph : A mis\u00e9ria ? \u00c9 quando uma pessoa ou uma fam\u00edlia vive com grandes dificuldades e se v\u00ea obrigada a pedir socorro \u00e0 assist\u00eancia, porque n\u00e3o \u00e9 reconhecida como algu\u00e9m com direitos. Creio que a mis\u00e9ria \u00e9 isto : encontrar-se sem direitos. Se h\u00e1 fam\u00edlias ou pessoas condenadas a viver, como se n\u00e3o tivessem direitos, \u00e9 porque as consideramos seres inferiores, incapazes de assumir responsabilidades. S\u00e3o elas mesmas que o dizem : \u201cConsideram-nos como se nada f\u00f4ssemos, como se n\u00e3o f\u00f4ssemos gente.\u201d<\/p>\n<p>Claudine : O que pensa disso ?<\/p>\n<p>Padre Joseph : Penso que \u00e9 uma profunda injusti\u00e7a, porque todas as pessoas e todas as fam\u00edlias que conhe\u00e7o por esse mundo fora, sobretudo em Fran\u00e7a, t\u00eam a vontade firme de se libertar desta situa\u00e7\u00e3o. No fundo, ningu\u00e9m aceita ter frio no inverno, passar fome, encontrar-se sem trabalho. Ningu\u00e9m gosta de se sentir desprezado, mal visto seja por quem for. No fundo, todos os pobres fazem esfor\u00e7os para levantar a cabe\u00e7a. Por\u00e9m, acontece que, \u00e0 for\u00e7a de os pormos de lado, de os considerarmos in\u00fateis, acabamos por n\u00e3o ser capazes de reparar nos esfor\u00e7os que fazem. Vi fam\u00edlias que, para receberem a visita de uma assistente social, tinham limpo a casa de ponta a ponta. Mas a casa era t\u00e3o miser\u00e1vel, era tudo t\u00e3o pobre que a assistente social, mal entrou, come\u00e7ou por dizer : \u201cMas como \u00e9 que voc\u00eas conseguem viver num chiqueiro destes ?\u201d A mis\u00e9ria \u00e9 isto mesmo : ningu\u00e9m repara nos esfor\u00e7os que fazeis, ningu\u00e9m olha para v\u00f3s, com olhos de ver.<\/p>\n<p>Claudine : O que \u00e9 que o levou a ir ao encontro destas fam\u00edlias ?<\/p>\n<p>Padre Joseph : Come\u00e7o por dizer que passei toda a minha inf\u00e2ncia na mis\u00e9ria. Mais tarde, aprendi o of\u00edcio de pasteleiro e ent\u00e3o, foi-me dada a oportunidade de entrar num movimento de jovens que se chamava J.O.C. (Juventude Oper\u00e1ria Cat\u00f3lica).Assim, pude contactar com outros jovens que, como eu, vinham de meios onde sofrimentos e humilha\u00e7\u00f5es eram o p\u00e3o nosso de cada dia. Depois, decidi entrar no semin\u00e1rio para melhor poder ir ao encontro de jovens como aqueles, de m\u00e3es como a minha que, estoiradas de cansa\u00e7o, faziam das tripas cora\u00e7\u00e3o para conseguirem educar os filhos. E dizia c\u00e1 para comigo : \u201cQuando for padre, vou ter o poder de Deus para salvar e p\u00f4r de p\u00e9.\u201d N\u00e3o me enganei, pois n\u00e3o ? A mis\u00e9ria tornou-se para mim numa companheira que nunca mais me largou, durante a vida toda. Enquanto fui prior de aldeia, senti-me feliz, como um peixe na \u00e1gua. At\u00e9 que um dia, o bispo me disse : \u201cJoseph, em Noisy-le-Grand h\u00e1 um acampamento, onde vivem algumas centenas de fam\u00edlias e faz l\u00e1 falta um padre. Se quiseres, podes ir para l\u00e1.\u201d Como a menina est\u00e1 a ver, as coisas come\u00e7aram por ser uma decis\u00e3o de igreja. Mal l\u00e1 cheguei, dei-me de frente com um sem n\u00famero de fam\u00edlias que vinham de todo o lado e que de comum s\u00f3 tinham a mis\u00e9ria que ali as reunia. Por conseguinte, n\u00e3o formavam aquilo a que se chama uma aldeia, uma comunidade, porque uma aldeia cria-se \u00e0 volta de um conjunto de actividades que ligam as pessoas entre si. Uma comunidade \u00e9 um ideal que faz com que os homens vivam em conjunto. Aqui, por\u00e9m, nada havia que pudesse reunir as pessoas entre si, a n\u00e3o ser a mis\u00e9ria, o sofrimento, a humilha\u00e7\u00e3o. Eu vinha, pois com a inten\u00e7\u00e3o de me atolar no lama\u00e7al de corpo e alma com eles, de viver com eles, de partilhar as suas vidas, para tentar compreender o que os animava, o que os fazia mexer. Acabei por me dar conta que viviam esmagados por coisas a mais. Para come\u00e7ar n\u00e3o havia ali nem uma s\u00f3 escola. No entanto, ali viviam cerca de mil crian\u00e7as, das quais apenas um ter\u00e7o frequentava uma escola fora do acampamento. S\u00f3 havia tr\u00eas chafarizes para 250&#8230;260 fam\u00edlias. S\u00f3 havia uma retrete, \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de todas as fam\u00edlias. O acampamento era constitu\u00eddo por toda uma s\u00e9rie de casas abarracadas, uma esp\u00e9cie de arrecada\u00e7\u00f5es, em forma de meia-lua, feitas de fibrocimento, com cinco metros e vinte de largo por oito metros e quarenta de comprimento. Estas fam\u00edlias precisavam, antes de mais, de ser reconhecidas, precisavam de saber que eu lhes fazia confian\u00e7a. Ent\u00e3o, agarrei-me com unhas e dentes, durante anos a fio, para poder garantir a mim mesmo, para ter a profunda convic\u00e7\u00e3o de que elas podiam e deviam fazer tudo o que estava ao seu alcance para sairem daquela situa\u00e7\u00e3o. As ditas \u201carrecada\u00e7\u00f5es\u201d nem por sombras sabiam o que era o cimento, n\u00e3o tinham luz nem \u00e1gua. Todos em conjunto, pusemo-nos a abrir valas, a cimentar, a refor\u00e7ar paredes, a fazer quartos individuais para as crian\u00e7as, para que tivessem menos frio no inverno e menos calor no ver\u00e3o, para que n\u00e3o se desidratassem. Tudo isto foi uma aventura extraordin\u00e1ria com as fam\u00edlias, a tal ponto que a um dado momento come\u00e7aram a dizer : \u201cE se a gente fizesse uma associa\u00e7\u00e3o, se a gente se pusesse num grupo ?\u201d Pusemo-nos de acordo e cri\u00e1mos uma associa\u00e7\u00e3o a que demos o nome de \u201cAide \u00e0 Toute D\u00e9tresse\u201d (Ajuda em toda a desgra\u00e7a). Isto ao princ\u00edpio. Mais tarde demo-nos conta que o nome escolhido n\u00e3o nos convinha, porque as fam\u00edlias lutavam, punham-se de p\u00e9 e queriam, a todo o custo, sair daquela situa\u00e7\u00e3o. Era uma aventura, verdadeiramente, \u00fanica. Num belo dia, quando fal\u00e1vamos da Revolu\u00e7\u00e3o Francesa de 1789, ao descobrirmos os \u201cCadernos de queixas do quarto estado\u201d, dissemos uns para os outros : \u201cE se nos cham\u00e1ssemos o Quarto Mundo ? J\u00e1 que somos pessoas de p\u00e9, gente que quer libertar-se, fam\u00edlias que recusam a mis\u00e9ria e que incitam os outros a unir-se a elas neste combate.\u201d Foi assim que foi criado o Movimento ATD Quarto Mundo.<\/p>\n<p>Claudine : O que \u00e9 que mudou da\u00ed para c\u00e1 na vida, na situa\u00e7\u00e3o das pessoas do Quarto Mundo ?<\/p>\n<p>Padre Joseph : Uma coisa \u00e9 certa, qualquer que seja o s\u00edtio onde a menina v\u00e1 e encontre fam\u00edlias que conheceram o Movimento ou que caminharam com ele, todas lhe dir\u00e3o : \u201cNo fundo, com ATD nem sempre se chegava a um acordo sobre todas as coisas, mas ATD, diga-se o que se disser, restituiu-nos a honra.\u201d Creio que permitimos a um povo desconhecido, rejeitado, posto de lado manifestar que existia. Foi uma grande vit\u00f3ria. A segunda grande vit\u00f3ria foi quando jovens, homens e mulheres pensaram que valia a pena viver com o quarto mundo, com os mais pobres para lutar a seu lado, para nos libertarmos todos da mis\u00e9ria. Penso, pois, que a segunda vit\u00f3ria das fam\u00edlias foi a cria\u00e7\u00e3o de um voluntariado permanente, \u00e0 maneira de ATD Quarto Mundo. Mas nada disto se passou sem dificuldades. Por exemplo, quando cheguei ao acampamento de Noisy-le-Grand, encontrei l\u00e1 a sopa dos pobres, o banco alimentar. Infelizmente, havia l\u00e1 tudo o que ainda hoje existe para os pobres. Eu comecei por construir uma biblioteca. Evidentemente, as pessoas n\u00e3o me compreendiam. Era uma iniciativa que escapava n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 compreens\u00e3o das fam\u00edlias pobres, mas tamb\u00e9m \u00e0 das pessoas que nos rodeavam. As pessoas diziam : \u201cSejamos s\u00e9rios. Se esta gente n\u00e3o sabe ler, para que serve uma biblioteca ? \u00c9 uma hist\u00f3ria de malucos !\u201d A seguir, organizei cursos de dan\u00e7a e criei um atelier de esteticista, para dar oportunidade \u00e0s pessoas de se valorizarem, para que, ao valorizarem-se a si mesmas, pudessem, por sua vez, valorizar os outros. Isto foi uma aventura levada da breca, porque tive que me bater contra tudo e contra todos. Abrir um atelier de esteticista, organizar cursos de dan\u00e7a, abrir uma biblioteca, um jardim de inf\u00e2ncia, introduzir, progressivamente, o acesso \u00e0 televis\u00e3o, quando na realidade a popula\u00e7\u00e3o vivia no meio dum lama\u00e7al, tudo isto foi sentido por muitos como um grande esc\u00e2ndalo. Por outro lado, criei, logo de in\u00edcio, um instituto de investiga\u00e7\u00e3o que, ao p\u00f4r \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o todo um conjunto de dados cient\u00edficos, nos serviria de lan\u00e7a de combate, de rampa de lan\u00e7amento. Naquela altura, fazer isto era muito importante. A seguir, veio o momento de atingirmos uma dimens\u00e3o internacional, ao conseguirmos entrar em rela\u00e7\u00e3o com grandes inst\u00e2ncias como a OIT, a UNESCO, a ONU, a UNICEF. Tudo isto foi feito de prop\u00f3sito. Pois precis\u00e1vamos de arranjar argumentos de defesa, para que ningu\u00e9m nos pudesse acusar de sermos uma pequena associa\u00e7\u00e3o. Para n\u00f3s, o sermos uma pequena ou uma grande associa\u00e7\u00e3o n\u00e3o era o mais importante. O que mais contava para n\u00f3s era encontrarmos apoio em todos os meios.<\/p>\n<p>Claudine : Quando se encontra com um membro do governo, o que \u00e9 que lhe diz ?<\/p>\n<p>Padre Joseph : O que lhe digo ? Digo-lhe, antes de mais, que tem responsabilidades, que a mis\u00e9ria \u00e9 uma realidade absolutamente intoler\u00e1vel. Digo-lhe ainda que, em primeiro lugar, deve come\u00e7ar por se interrogar fazendo a si mesmo tr\u00eas perguntas. Sendo a primeira : o que fa\u00e7o ? A segunda : o que digo ? E a terceira : o que penso ? O que fa\u00e7o, digo e penso \u00e9, verdadeiramente, \u00fatil para os mais pobres ? Enquanto Movimento, tentamos levar os respons\u00e1veis pol\u00edticos, sindicais, religiosos e outros a fazerem a si mesmos estas perguntas : Os nossos combates est\u00e3o verdadeiramente ao servi\u00e7o de toda a gente ? Ou n\u00e3o ser\u00e1 que pomos de lado, que ignoramos parte das fam\u00edlias, parte das pessoas ? As nossas revindica\u00e7\u00f5es s\u00e3o, realmente, revindica\u00e7\u00f5es para o interesse de todos ? O mundo da mis\u00e9ria \u00e9 o primeiro a sofrer as consequ\u00eancias da conjuntura e at\u00e9 podemos dizer que, em cada \u00e9poca, aparecem novos pobres que ocupam a linha da frente para serem vistos e achados. Mesmo se isto \u00e9, em si, perfeitamente leg\u00edtimo, n\u00e3o deixa, no entanto, de fazer com que as fam\u00edlias, que h\u00e1 muito receberam, de pais para filhos, a grande pobreza em heran\u00e7a sejam, periodicamente, esquecidas, por assim dizer, postas de lado. Ent\u00e3o, temos que come\u00e7ar novamente a informar, a mostrar que estas fam\u00edilias continuam a existir, que desejam sair daquela situa\u00e7\u00e3o e que, se n\u00e3o v\u00e3o mais longe, \u00e9 porque n\u00e3o lhes reconhecemos direitos, \u00e9 porque n\u00e3o nos organizamos para fazer com que elas vejam, realmente, os seus direitos reconhecidos. Se n\u00e3o tivermos cuidado com o que andamos a fazer, as nossas democracias acabar\u00e3o por viver sem nunca mais se ocuparem destas fam\u00edlias, acabar\u00e3o por n\u00e3o fazer refer\u00eancia de esp\u00e9cie alguma \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria em que vivem. \u00c9 por isso que as tr\u00eas perguntas que fa\u00e7o s\u00e3o sempre as mesmas. O que faz ? O que diz ? O que pensa ? Acha que isso serve realmente a causa dos mais pobres ? Acha que isso lhes permite assumir responsabilidades e sair da situa\u00e7\u00e3o de pobreza em que vivem ? N\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o nenhuma, para que as crises econ\u00f3micas sejam mais desastrosas para as fam\u00edlias desfavorecidas do que para as outras, pois tamb\u00e9m isto \u00e9 uma quest\u00e3o de solidariedade. A pergunta a fazer aqui \u00e9 : Ser\u00e1 que aqueles que mais t\u00eam s\u00e3o capazes de aceitar receber menos em proveito dos que menos t\u00eam ? Aqui se encontra o n\u00f3 da quest\u00e3o. S\u00f3 arrancaremos a mis\u00e9ria do mundo, na medida em que aquelles que t\u00eam aceitarem ter menos, por causa dos que nada t\u00eam. N\u00e3o por raz\u00f5es de esmola, mas por raz\u00f5es de justi\u00e7a. Aqui n\u00e3o se trata de uma quest\u00e3o de esmola. Aqui trata-se de justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Claudine : N\u00e3o me pode falar um pouco das crian\u00e7as do Quarto Mundo ?<\/p>\n<p>Padre Joseph : Quando nos pomos a falar de crian\u00e7as, temos sempre surpresas. Estou-me a lembrar da Patr\u00edcia. O pai era coveiro e l\u00e1 em casa era horr\u00edvel, porque tudo estava coberto de mortalhas. A toalha da mesa era uma mortalha e at\u00e9 os guardanapos eram feitos de mortalhas. A m\u00e3e tinha desaparecido e l\u00e1 em casa, para al\u00e9m da Patr\u00edcia, havia mais seis crian\u00e7as. \u00c0 noite, deitava-se na cama do pai e prendia-se a ele com alfinetes, para que a pol\u00edcia a n\u00e3o pudesse levar, juntamente, com os irm\u00e3os e irm\u00e3s. Neste combate contra a pol\u00edcia, escondia-se com os irm\u00e3os e irm\u00e3s entre o telhado e o tecto do jardim de inf\u00e2ncia e, com a minha cumplicidade, l\u00e1 passavam a noite, para que a pol\u00edcia os n\u00e3o pudesse levar. Tempos depois, quando tudo isto j\u00e1 tinha passado, a m\u00e3e voltou para casa. Foi o sol que entrou. Muito mais tarde, ao encontrar a Patr\u00edcia j\u00e1 na vida, ela disse-me : \u201cQuando eu era crian\u00e7a, foi maravilhoso, fui t\u00e3o feliz. Era o meu pai que aguentava com tudo.\u201d As crian\u00e7as s\u00e3o assim : servem-se de tudo para fazerem uma festa, um pequeno momento de felicidade. Isto enche os adultos de alegria, porque o reconhecimento destes pequenos momentos de felicidade leva-os a procurar dar grandes alegrias \u00e0s crian\u00e7as e, ao mesmo tempo, d\u00e1-lhes confian\u00e7a na vida, porque as crian\u00e7as d\u00e3o a impress\u00e3o de n\u00e3o estar marcadas, de n\u00e3o ter \u00f3dio. Sempre reparei que as crian\u00e7as da mis\u00e9ria crescem sem \u00f3dio, o que \u00e9, absolutamente, extraordin\u00e1rio. Talvez isso aconte\u00e7a, porque o \u00f3dio \u00e9 demasiado pesado a carregar. Ou ent\u00e3o, talvez aconte\u00e7a, porque as crian\u00e7as reconhecem, e s\u00e3o muito sens\u00edveis aos enormes esfor\u00e7os que os pais fazem por elas. Talvez seja por esta raz\u00e3o que as crian\u00e7as da mis\u00e9ria ficam t\u00e3o agarradas aos pais. Por vezes, h\u00e1 quem diga com grande espanto : \u201cMas como \u00e9 feito que n\u00e3o largam os pais, que n\u00e3o se v\u00e3o embora ?\u201d At\u00e9 h\u00e1 quem fale, erradamente, de aglutina\u00e7\u00e3o, como se estivessem, irremediavelmente, colados uns aos outros. Se as crian\u00e7as da mis\u00e9ria ficam assim t\u00e3o agarradas aos pais, \u00e9 porque se d\u00e3o conta que o pai e a m\u00e3e, por causa delas, aguentaram muita bofetada na vida, que o pai e a m\u00e3e foram para elas mais do que um escudo de protec\u00e7\u00e3o, porque foi muito mais do que isso&#8230; \u00e9 mais exacto dizer que os pais lhes protegeram o cora\u00e7\u00e3o envolvendo-o em gestos de amor. Isto \u00e9 uma coisa extraordin\u00e1ria ! Falar de crian\u00e7as \u00e9 evocar aqueles garotos que, numa tarde de Fevereiro em que fazia um f io de rachar, foram vender os berlindes, porque era o anivers\u00e1rio da m\u00e3e. Fazia v\u00e1rios dias que n\u00e3o havia p\u00e3o l\u00e1 em casa, que n\u00e3o havia nada para comer. Ent\u00e3o vieram-me ver, mas como tamb\u00e9m eu n\u00e3o tinha nada para lhes dar, fui pedir de porta em porta e consegui arranjar um pouco de p\u00e3o seco para lhes oferecer. Mas aquele dia era diferente. \u201c\u00c9 o anivers\u00e1rio da nossa m\u00e3e e n\u00e3o temos nada para lhe oferecer !\u201d Ent\u00e3o, venderam os berlindes e com o dinheiro compraram um p\u00e3o que trouxeram, \u00e0 tardinha, para casa. Isto s\u00e3o as crian\u00e7as. As crian\u00e7as da mis\u00e9ria nem t\u00e3o pouco t\u00eam o direito de guardar nada de seu, nada do que as faz felizes. Tamb\u00e9m estou a ver o Nono, no meio da lama. Era horr\u00edvel. Tinha chovido muito e havia po\u00e7as de \u00e1gua por todo o lado. Uma senhora fina, que entretanto tinha chegado, trouxe-lhe um chocolate e o Nono foi ao encontro da irm\u00e3 para o partilhar com ela. Os garotos da mis\u00e9ria s\u00e3o assim. Tamb\u00e9m eu era assim, quando era garoto : inventava, achava, procurava, roubava, rapinava, amanhava-me, para que n\u00e3o houvesse muita fome l\u00e1 em casa. Os garotos da mis\u00e9ria s\u00e3o assim, s\u00e3o campe\u00f5es, campe\u00f5es do amor. \u00c9 pena que n\u00e3o o reconhe\u00e7amos.<\/p>\n<p>Claudine : E a prop\u00f3sito da escola ?<\/p>\n<p>Padre Joseph : A escola \u00e9 o templo do saber. As crian\u00e7as da mis\u00e9ria gostam de ir \u00e0 escola, sonham com a escola. Mas, quando l\u00e1 chegam, d\u00e3o-se conta que ali n\u00e3o \u00e9 o seu meio. Ali, lhes fazem perguntas que pouco ou nada compreendem ; sucede que, por vezes, compreendem as perguntas at\u00e9 demais, porque levam \u00e1gua no bico. Ali, ouvem coment\u00e1rios desagrad\u00e1veis, que ferem a sua sensibilidade. Por vezes, durante o recreio, ouvem os companheiros tratar a m\u00e3e ou o pai de pregui\u00e7osos, sendo este comportamento, muitas vezes, aceite pelos professores. Assim, ao fim de muito pouco tempo, as crian\u00e7as acabam por se sentir rejeitadas. Sabe&#8230;tamb\u00e9m eu era assim. E continuo a s\u00ea-lo. Ainda hoje, tenho dificuldade em p\u00f4r-me a caminho ; sou lento da cabe\u00e7a ; arrasto os p\u00e9s. Tudo isto demora muito a esquecer. \u00c9 preciso muita paci\u00eancia e, muitas vezes, n\u00e3o se \u00e9 paciente com estes garotos. \u00c9 verdade que s\u00e3o, por vezes, barulhentos, pois l\u00e1 em casa reina a desordem e o caos. N\u00e3o se pode dizer que n\u00e3o haja ordem, h\u00e1 uma ordem que \u00e9 pr\u00f3pria da mis\u00e9ria, ou seja tudo \u00e9 desordem, mesmo quando se tenta criar uma certa ordem. Ent\u00e3o, n\u00e3o prestam aten\u00e7\u00e3o \u00e0s coisas, fazem barulho, t\u00eam uma linguagem um pouco mais crua que os outros. Assim, h\u00e1 uma real dificuldade em compreend\u00ea-los. Estes garotos que, ao princ\u00edpio, se sentiam t\u00e3o felizes por irem \u00e0 escola, acabam, ao fim de pouco tempo, por n\u00e3o querer mais l\u00e0 voltar. Os pais sentem muito bem que os filhos sofrem com esta situa\u00e7\u00e3o e, ent\u00e3o, acabam por n\u00e3o os obrigarem a ir \u00e0 escola. Se o professor n\u00e3o passar l\u00e0 por casa para ver o pai ou a m\u00e3e, se a professora n\u00e3o vier ver o bairro onde moram estes garotos, ent\u00e3o, n\u00e3o conseguir\u00e3o compreender coisas como ter piolhos na cabe\u00e7a, como cheirar mal. Tudo isto faz com que as crian\u00e7as se sintam mal. Foi por esta raz\u00e3o que eu lhes ensinava a dan\u00e7ar, para que se sentissem bem no seu corpo, para que, quando entrassem na escola, pudessem mostrar aos outros como \u00e9 que \u00e9.<\/p>\n<p>Claudine : Sentem-se mesmo diferentes dos outros ?<\/p>\n<p>Padre Joseph : Sim. Sentem-se diferentes, na medida em que lhes dizem, claramente, que s\u00e3o diferentes. Sentem-se diferentes, porque, muitas vezes, vestem roupa que n\u00e3o lhes serve, roupa que era de outros. A minha m\u00e3e vestia-me com a roupa dos pobres. Quando tive o meu primeiro fato, ainda hoje me recordo, fui com a minha m\u00e3e compr\u00e1-lo num armaz\u00e9m que pertencia a um Israelita, que tinha muita considera\u00e7\u00e3o pela minha m\u00e3e e que a tratava com respeito. Foi assim que a minha m\u00e3e me comprou o meu primeiro fato. As mangas do casaco tapavam-me completamente as m\u00e3os. \u201cEle vai crescer e assim o fato vai servir-lhe durante dois ou tr\u00eas anos.\u201d Comentava ela. Quando se \u00e9 crian\u00e7a da mis\u00e9ria, est\u00e1-se sempre mais ou menos bem vestido, mais ou menos apresent\u00e1vel. \u00c9 evidente que acabamos por nos sentir diferentes. E depois, tamb\u00e9m nos sentimos diferentes, porque os pais dos outros dizem aos filhos para n\u00e3o frequentarem crian\u00e7as como n\u00f3s. Ent\u00e3o acontece que os outros nos dizem : \u201cA minha m\u00e3e n\u00e3o quer, o meu pai disse-me para n\u00e3o conviver contigo.\u201d Estas coisas ficam c\u00e1 dentro e n\u00e3o esquecem.<\/p>\n<p>Claudine : Pode dizer-me se os pais t\u00eam consci\u00eancia da import\u00e2ncia da escola para os filhos ?<\/p>\n<p>Padre Joseph : As respostas s\u00e3o bastante contradit\u00f3rias. H\u00e1 pais que dizem aos filhos : \u201c Est\u00e1s a ver. Eu n\u00e3o fiz o exame da quarta classe. Nunca fui \u00e0 escola, n\u00e3o sei ler nem escrever e, no entanto, n\u00e3o sou mais parvo que os outros e at\u00e9 consegui furar na vida.\u201d Mas, quando encaramos o \u00eaxito proclamado, \u00e9 a mis\u00e9ria que encontramos. Isto faz parte da gabarolice dos pobres. Na verdade, todos os pais, l\u00e1 bem no fundo, acham que \u00e9 preciso que os filhos aprendam. Acontece, por\u00e9m que na escola sofreram grandes humilha\u00e7\u00f5es. N\u00e3o se pode dizer que a escola os quis humilhar &#8230; mas a escola \u00e9 para eles um outro mundo, qualquer coisa que fica algures, fora do seu alcance&#8230; a escola \u00e9 como a igreja&#8230;.\u00e9 qualquer coisa que lhes fica de fora. O supermercado, embora lhes apare\u00e7a como qualquer coisa que n\u00e3o \u00e9 para eles, sempre \u00e9 mais vantajoso, porque a\u00ed h\u00e1 sempre qualquer coisa para roubar. Na escola n\u00e3o h\u00e1 nada que se possa roubar e na igreja ainda menos. (Risos) Os pais sofreram muito com a escola, mesmo muito. Aqui h\u00e1 tempos, pediram-me para escrever uma dedicat\u00f3ria num livro de poesia e eu escrevi : \u201cTenho inveja.\u201d Tenho inveja de todos os que, ainda jovens, puderam descobrir Bethoven, Mozart e outros, porque eu nunca o pude fazer. \u00c9 por isso que sempre quis que as crian\u00e7as pobres aprendessem e conhecessem a arte, a poesia, a beleza. N\u00e3o \u00e9 a riqueza que os pobres mais invejam nos ricos. Um dia um garoto disse-me : \u201cOs ricos vivem muito atravancados&#8230; com todas aquelas coisas que eles t\u00eam&#8230;devem ser mesmo muito infelizes.\u201d Eu creio que \u00e9 a ignor\u00e2ncia que os torna ciumentos, porque lhes pesa verem-se nela mantidos e sofrem com isso. Aqueles com quem tive a oportunidade de falar, longamente, e que se confiaram a mim, revelando-me o que lhes ia na alma, todos eles me disseram a mesma coisa : \u201cA n\u00f3s, nunca ningu\u00e9m nos ensinou nada. Somos tratados como bichos. Somos burros. Ent\u00e3o, ficamos burros para sempre e enterramo-nos na estupidez.\u201d Isto \u00e9 muito grave. Sabe ? A injusti\u00e7a da priva\u00e7\u00e3o de coisas \u00e9 horr\u00edvel, mas a injusti\u00e7a da ignor\u00e2ncia \u00e9, sem d\u00favida, o pior dos males que se pode fazer a uma pessoa. \u00c9 uma injusti\u00e7a sem medida, porque impede as pessoas de participarem na vida do mundo, no conhecimento dos seres, das coisas, dos acontecimentos, de tudo. \u00c9 privar as pessoas do conhecimento de Deus. \u00c9 horr\u00edvel, horr\u00edvel, horr\u00edvel&#8230;\u00c9 uma extrema injusti\u00e7a, \u00e9 a maior das injusti\u00e7as. \u00c9 por isso que o Movimento sempre lutou, que os volunt\u00e1rios lutam, para que as crian\u00e7as recebam o mais que podem, para que aproveitem e se desenvolvam, para que, amanh\u00e3, possam servir-se de um esp\u00edrito capaz de ver claro, de uma linguagem compreens\u00edvel e, assim, se sintam existir como pessoas, perante os outros.<\/p>\n<p>Claudine : T\u00eam falta de estabilidade, de seguran\u00e7a ?<\/p>\n<p>Padre Joseph : \u00c9 \u00f3bvio. Eu pr\u00f3prio tenho falta de seguran\u00e7a&#8230; Mesmo se n\u00e3o o parece, fiquei t\u00edmido, pois tenho sempre a impress\u00e3o de que os outros me s\u00e3o superiores, que fazem e falam melhor, que sabem mais do que eu. Quando a vida das fam\u00edlias se encontra, constantemente, rebaixada, o sentimento de inseguran\u00e7a \u00e9 inevit\u00e1vel. Nunca ningu\u00e9m lhes pede conselho, nem t\u00e3o pouco a opini\u00e3o sobre as coisas que lhes dizem respeito. Estou a lembrar-me de uma m\u00e3e que me dizia : \u201c\u00c9 curioso. Conhe\u00e7o muito bem os meus filhos e, no entanto, quando me foram tirados, ningu\u00e9m me perguntou onde \u00e9 que poderiam ser colocados, a quem poderiam ser confiados. Ningu\u00e9m me perguntou por nada, mas eu conhe\u00e7o os meus filhos muito bem.\u201d \u00c9 assim. O pobre \u00e9 considerado, logo \u00e0 primeira vista, como ignorante e, por conseguinte, como sendo incapaz de exprimir seja o que for. Por conseguinte, creio que a ignor\u00e2ncia \u00e9 a pior das coisas. Repare que os capel\u00e3es das pris\u00f5es revelam que a maioria dos presos n\u00e3o sabe ler nem escrever e que muitos deles v\u00eam do mundo da mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>Claudine : A vossa ac\u00e7\u00e3o junto das crian\u00e7as do terceiro e do quarto mundo \u00e9 id\u00eantica ?<\/p>\n<p>Padre Joseph : Penso que a maneira de abordar a inf\u00e2ncia \u00e9 essencialmente a mesma. As crian\u00e7as, sejam elas deste ou daquele pa\u00eds, desta ou daquela cultura, trazem nelas a mesma sede profunda de justi\u00e7a, a mesma necessidade de ternura, de curiosidade ; manifestam, em toda a parte, um grande desejo de saber, de tocar nas coisas e, tamb\u00e9m, uma grande necessidade de serem compreendidas e respeitadas. Tamb\u00e9m no terceiro mundo, as crian\u00e7as mais pobres, que encontramos, precisam de ser acompanhadas, no que diz respeito \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o do saber. Foi por isso que cri\u00e1mos Bibliotecas de Rua. Os volunt\u00e1rios partem para os bairros, uns levam consigo livros para partilharem com os crian\u00e7as o que sabem, outros levam um computador que \u00e9 posto \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, no seu pr\u00f3prio meio. Como dizia, com orgulho, um garoto de Nova Iorque : \u201cAqui est\u00e1-se melhor que na s\u00e9tima avenida, porque n\u00f3s at\u00e9 temos um computador, no meio da nossa rua.\u201d No terceiro mundo, cri\u00e1mos aquilo a que chamamos Bibliotecas do Campo. Onde encontramos um espa\u00e7o, a\u00ed nos instalamos com livros. Montamos os cavaletes, para que os garotos possam desenhar. Proporcionamos meios de express\u00e3o, como por exemplo, a cria\u00e7\u00e3o de brinquedos. Tudo \u00e9 feito, no momento. A nossa ideia \u00e9 a de estarmos sempre o mais perto poss\u00edvel das pessoas. \u00c0 nossa volta, h\u00e1 sempre uma revoada de rapazes e raparigas &#8230;\u00e9 extraordin\u00e1rio&#8230; Um dia, encontrava-me eu em Haiti, quando ouvi um jovem contar a hist\u00f3ria do Capuchinho Vermelho a um grupo de garotos que andavam por ali e que o escutavam com sofreguid\u00e3o. Isto nos confins de uma colina, a dois quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia de toda e qualquer habita\u00e7\u00e3o. E via-se o lobo a sair do esconderijo&#8230;era uma coisa genial&#8230;formid\u00e1vel&#8230;(risos) Os jovens do terceiro mundo sentem que o saber \u00e9 coisa importante e procuram comunic\u00e1-lo aos irm\u00e3ozitos, aos amigos. Apetece-me dizer que no Ocidente estamos empanturrados de saber, fartos de escola, fartos de universidade e acabamos por n\u00e3o nos darmos conta da riqueza que isso representa ; infelizmente, n\u00e3o temos a paix\u00e3o de transmitir o saber, at\u00e9 porque consideramos, por vezes, o saber como uma coisa pr\u00f3pria dos burgueses, o que \u00e9 completamente rid\u00edculo. O saber \u00e9 universal, n\u00e3o \u00e9 perten\u00e7a exclusiva de uma classe social ; o saber pertence \u00e0 humanidade. No Ocidente, h\u00e1 uma esp\u00e9cie de barragem e os jovens, que poderiam transmiti-lo a outros, acabam por guard\u00e1-lo s\u00f3 para si, no maior dos ego\u00edsmos, como uma afronta. Penso que o saber se tornou numa coisa banal ; n\u00e3o sei como explicar isto, mas h\u00e1 como que um sentimento de enjoo em rela\u00e7\u00e3o ao saber. Quem sabe julga-se superior e j\u00e1 n\u00e3o consegue aperceber-se de que o saber que tem foi adquirido, porque outros mataram a cabe\u00e7a e se deram ao trabalho de o transmitir. Os que frequentam a universidade nem sempre se d\u00e3o conta (o que \u00e9 grave) de que, na realidade, o saber que t\u00eam foi obtido \u00e0 custa dos sacrifcios impostos aos oper\u00e1rios, ao mundo do trabalho, a todos os que tiveram que se contentar com a aprendizagem de um of\u00edcio ou com o exame da quarta classe. H\u00e1 como que uma inconsci\u00eancia e \u00e9 por isso que o Movimento tenta sensibilizar os jovens. Descobri estas coisas, em Maio de 1968, aquando das manifesta\u00e7\u00f5es dos estudantes. Nessa altura, os estudantes passavam noites inteiras a discutir. Eu olhava para aqueles jovens, cheios de intelig\u00eancia, com possibilidades consider\u00e1veis ao seu alcance e dizia para comigo : Estas discuss\u00f5es n\u00e3o levam a lado nenhum&#8230;S\u00e3o uma perca de tempo, quando nos bairros pobres h\u00e1 milhares de crian\u00e7as que nem t\u00e3o pouco sabem ler, nem escrever. Foi ent\u00e3o que inventei \u201co saber na rua.\u201d Os estudantes t\u00eam que vir ensinar o que sabem, o que aprenderam ; t\u00eam que partilh\u00e1-lo com os que, infelizmente, nunca ter\u00e3o possibilidades de frequentar a universidade, que nem t\u00e3o pouco ter\u00e3o a possibilidade de aprenderem um of\u00edcio, de fazerem uma forma\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, fui, de bar em bar, conversar com eles e consegui convencer alguns a juntarem-se a n\u00f3s. N\u00e3o foi nada f\u00e1cil. Eu queria que aquele que sabe ensinasse aquele que n\u00e3o sabe, pois isto \u00e9 da responsabilidade de todos os que sabem. Quem sabe possui um saber que tamb\u00e9m \u00e9 devido aos outros e, por conseguinte, tem a obriga\u00e7\u00e3o de o partilhar com outros. Mesmo se a aquisi\u00e7\u00e3o do saber implica um esfor\u00e7o pessoal, isso n\u00e3o impede que o saber lhe veio gra\u00e7as ao dom de outros. Um jovem de 17 anos que trabalha numa f\u00e1brica tamb\u00e9m faz esfor\u00e7os, sem que a oportunidade de, um dia, vir a ter um diploma, uma licenciatura, um doutoramento lhe venha a ser dada . O conhecimento n\u00e3o \u00e9 um privil\u00e9gio a conceder a alguns ; \u00e9 um dom a fazer a todos e, por conseguinte, quem o tem deve pensar em quem o n\u00e3o tem. Se tiv\u00e9ssemos posto os estudantes em contacto com a mis\u00e9ria, com as camadas mais pobres da popula\u00e7\u00e3o, com os que sofrem ; se lhes tiv\u00e9ssemos mostrado tudo o que podem fazer&#8230;Se os estudantes tivessem posto as suas manifesta\u00e7\u00f5es ao servi\u00e7o dos pobres ; se tivessem ido ao encontro dos bairros pobres da regi\u00e3o de Paris para manifestarem, participando nas Bibliotecas de Rua, trazendo um computador ou um instrumento de laborat\u00f3rio, pois bem, penso que as suas manifesta\u00e7\u00f5es teriam ganho um outro significado ; creio, ainda, que as amadas populares, o mundo oper\u00e1rio, as pessoas que vivem com dificuldades se teriam posto, interiramente, de acordo com eles, a seu lado, e t\u00ea-los-iam apoiado noutros termos, porque teriam descoberto que entre a universidade e o mundo dos pobres, o mundo da mis\u00e9ria n\u00e3o existe um fosso intranspon\u00edvel ; teriam descoberto que \u00e9 a mesma humanidade que se bate pela mesma causa : a causa da liberdade, a causa do respeito de uns pelos outros. Tudo isto \u00e9 um mundo de coisas. Sabe, isto de lutar contra todas as injusti\u00e7as que s\u00e3o feitas \u00e9 uma coisa formid\u00e1vel. Vale a pena dar uma parte de si, uma parte da vida, ou at\u00e9 mesmo a vida inteira por isto.<\/p>\n<p>Claudine : Que gostaria de dizer aos jovens de hoje ?<\/p>\n<p>Padre Joseph : Pois bem, eu diria : N\u00e3o olhes para ti ; olha para os outros. N\u00e3o penses muito em ti ; pensa nos outros. N\u00e3o te batas muito por ti ; bate-te pelos outros. E, se fazes parte dos que rezam, compromete-te, empenha-te ; n\u00e3o te limites a pertencer a uma comunidade que n\u00e3o resplandece, que n\u00e3o desabrocha. Desabrocha. Rebenta. Um jovem \u00e9 feito para desabrochar. Se n\u00e3o rebenta, n\u00e3o vale a pena ser jovem, n\u00e3o \u00e9 verdade ? A menina \u00e9 jovem. Se n\u00e3o desabrochar agora, diga-me l\u00e1 para que serve a sua juventude ? N\u00e3o \u00e9 quando tiver a minha idade, que voc\u00ea vai desabrochar. Ser\u00e1 tarde demais, pois j\u00e1 n\u00e3o ter\u00e1 nem a for\u00e7a, nem a imagina\u00e7\u00e3o necess\u00e1rias.<\/p>\n<p>Claudine : O que \u00e9 que se ganha, quando se rebenta ? Quando se desabrocha ?<\/p>\n<p>Padre Joseph : Ganha-se muita coisa formid\u00e1vel ! Ganha-se um extraordin\u00e1rio encontro com os outros ! Quando voc\u00ea vai ao encontro dos outros, acaba, inevitavelmente, por dar, por receber e, por conseguinte, por existir. \u00c9 formid\u00e1vel existir, saber que existimos, que muitos contam connosco, que somos importantes, n\u00e3o para este ou para aquele, mas para muitos. No fundo, a felicidade implica transpar\u00eancia e \u00e9, por conseguinte, um deslumbramento que irradia. A verdadeira alegria implica sempre a alegria dos outros. \u00c9 a isto que um jovem deve aspirar para si, pois da\u00ed depende o interesse da sua vida. Se n\u00e3o for assim, diga-me l\u00e1 que interesse pode ter a vida ? Na verdade, o jovem ainda n\u00e3o tem responsabilidades, ainda n\u00e3o lhe foram confiadas responsabilidades pol\u00edticas, ou econ\u00f3micas. Ao contr\u00e1rio do que se diz, o jovem n\u00e3o tem poder. Em compensa\u00e7\u00e3o tem o poder de fazer mexer as coisas, porque traz nele a esperan\u00e7a e o entusiasmo. Ent\u00e3o, pode p\u00f4r o mundo a mexer-se, em andamento, porque o jovem pode levar os adultos a descobrirem que n\u00e3o aceita o mundo como lho apresentam. Pode lev\u00e1-los a descobrir que o mundo n\u00e3o \u00e9 nem triste, nem feio, nem coisa nehuma do g\u00e9nero, mas sim que o mundo est\u00e1 dispon\u00edvel, aberto a novas maneiras de agir, de organizar. N\u00e3o h\u00e1 homem nenhum, mulher nenhuma que, no mais profundo de si mesmo, n\u00e3o sinta necessidade de se dar e, por conseguinte, de ir ao encontro de algu\u00e9m a quem possa dar-se e de quem possa receber. Creio que aqui se encontra o fundamento, o alicerce de toda a nossa humanidade.<\/p>\n<p><i>Tradu\u00e7\u00e3o de Carlos Rodrigues<\/i><\/p>\n<h3>documents<\/h3>\n<figure class=\"alignnone wp-caption\"><a href=\"\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2016\/09\/Encontros_com_o_Padre_Joseph_Wresinski.pdf\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" style=\"height: 52px;width: 52px\" src=\"\/wp-content\/uploads\/sites\/3\/2016\/09\/pdf-d7486.png\" alt=\"\" width=\"52\" height=\"52\" \/><\/a><\/figure>\n<p>Encontros com a Padre Joseph Wresinski<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista de Claudine Faure, em Outubro de 1987 Claudine : Padre Joseph, pode explicar-me o que \u00e9 a mis\u00e9ria ? 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