{"id":3419,"date":"2021-01-14T13:50:25","date_gmt":"2021-01-14T12:50:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/?p=3419"},"modified":"2021-01-17T12:26:36","modified_gmt":"2021-01-17T11:26:36","slug":"a-partilha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/a-partilha\/","title":{"rendered":"A partilha"},"content":{"rendered":"<p>O que \u00e9 partilhar? Aprendi-o quando era crian\u00e7a. Embora f\u00f4ssemos muito pobres, quando algum mendigo batia \u00e0 nossa porta, diziam-me: \u201colha, v\u00ea se arranjas por a\u00ed um peda\u00e7o de p\u00e3o e alguns test\u00f5es e vai d\u00e1-los a esse pobre que bateu \u00e0 porta\u201d.<\/p>\n<p>Acontecia, por vezes, que acolh\u00edamos em nossa casa o filho de uma vizinha. A m\u00e3e bebia e vivia sozinha com o garoto que, ao regressar da escola, a encontrava com frequ\u00eancia estendida no ch\u00e3o junto da salamandra. Ent\u00e3o o rapazinho de treze anos agarrava-a pelos bra\u00e7os e deitava-a na cama. A minha m\u00e3e acolhia de vez em quando este garoto e dava-lhe de comer. Tamb\u00e9m acontecia disputar-se com esta vizinha e era com uma enorme alegria que punha termo \u00e0 discuss\u00e3o exclamando: \u201d\u2026 s\u00f3 me faltava isto, depois de tudo o que eu fiz por ela\u201d.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m havia um padre que nos vinha visitar. Quando vinha era para receber a c\u00f4ngrua, contributo financeiro para sustento do clero. Como era um bom padre, visitava todos os paroquianos para receber deles este contributo. Mas tamb\u00e9m vinha visitar os pobres que n\u00f3s \u00e9ramos, sentava-se ali e ficava longamente a conversar com a minha m\u00e3e, connosco; d\u00e1vamos-lhe sempre cinquenta c\u00eantimos. E, como n\u00f3s prepar\u00e1vamos, \u00e0 noite, mortalhas para enrolar o tabaco, arranj\u00e1vamos maneira de batotar na quantidade de folhinhas de papel para lhe oferecermos um pequeno ma\u00e7o de mortalhas. Era a nossa maneira de partilhar.<\/p>\n<p>Mas o mais not\u00e1vel era que este padre, quando vinha a nossa casa, sentava-se para receber os cinquenta c\u00eantimos, o pacotinho de mortalhas e acabava por ficar longamente a ouvir a minha m\u00e3e o que era uma grande honra. Por vezes, fazia perguntas sobre a vizinhan\u00e7a e at\u00e9 pedia que fiz\u00e9ssemos alguma coisa pelo descrente que habitava por cima de n\u00f3s. Ele concedia \u00e0 minha m\u00e3e a honra da partilha e a possibilidade de partilhar com ela, n\u00e3o uma coisa qualquer, mas a honra e a confian\u00e7a.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que pensamos nisto, quando pensamos num pobre? Pensaremos que o pobre que temos \u00e0 nossa frente \u00e9 pobre n\u00e3o porque lhe falta alguma coisa, n\u00e3o porque lhe falta o p\u00e3o, n\u00e3o porque n\u00e3o pode receber algu\u00e9m \u00e0 sua mesa, n\u00e3o porque nenhuma honra lhe \u00e9 reconhecida? Mas sim, porque n\u00e3o pode dar, porque n\u00e3o tem nada para dar, porque n\u00e3o tem p\u00e3o para dar nem mesa para acolher algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Quando nos davam alguma coisa, era-nos dito: \u201cGuarda-o bem para ti!\u201d Diziam \u00e0 minha m\u00e3e: \u201cMinha senhora, isto \u00e9 para os seus filhos.\u201d<\/p>\n<p>Ainda me recordo que, quando tinha doze ou treze anos e, \u00e0 maneira de todas as crian\u00e7as pobres, eu dava tudo\u2026 n\u00e3o por caridade, mas sim por uma esp\u00e9cie de rea\u00e7\u00e3o ao facto de me encontrar sempre na situa\u00e7\u00e3o de quem recebe. E assim fiz at\u00e9 aos dezasseis, dezoito, vinte anos. Eu dava tudo, porque sempre me senti como algu\u00e9m que s\u00f3 servia para receber, porque estava farto de s\u00f3 servir para receber e ent\u00e3o dava tudo. O meu irm\u00e3o fazia o mesmo e tamb\u00e9m ele dava tudo.<\/p>\n<p>Quando \u00e9ramos crian\u00e7as, era-nos proibido que d\u00e9ssemos e diziam-nos:\u201d Damos-te rebu\u00e7ados, mas como n\u00e3o s\u00e3o muitos, s\u00e3o s\u00f3 para ti, n\u00e3o os d\u00eas a mais ningu\u00e9m.\u201d<\/p>\n<p>O mesmo sucedia \u00e0 minha pr\u00f3pria m\u00e3e, quando recebia alguma coisa\u2026 sugeriam-lhe que n\u00e3o era para dar ou vender. No fundo, quando lhe davam alguma coisa, era uma maneira de sentirem que n\u00e3o a tinham abandonado e assim continuavam a segui-la, a observ\u00e1-la atrav\u00e9s das coisas que lhe tinham dado, como se o dom dessas coisas constitu\u00edsse um direito de controlo, de observa\u00e7\u00e3o \u00e0 minha fam\u00edlia, exercendo sobre ela uma esp\u00e9cie de verifica\u00e7\u00e3o da boa utiliza\u00e7\u00e3o que faz\u00edamos. E o que era uma \u201cboa utiliza\u00e7\u00e3o\u201d? Era constatar que o garoto tinha verdadeiramente os p\u00e9s cal\u00e7ados, mesmo que os sapatos fossem demasiado apertados.<\/p>\n<p>Queriam saber o que t\u00ednhamos feito disto ou daquilo, porque no fundo n\u00e3o faziam confian\u00e7a na minha m\u00e3e. S\u00f3 lhe faziam confian\u00e7a depois de verem os garotos que n\u00f3s \u00e9ramos com os p\u00e9s enfiados nos sapatos\u2026 Ent\u00e3o dizia-se na par\u00f3quia: \u201c Que bom! Podemos ajudar a senhora Wresinski, porque ela utiliza verdadeiramente bem o que lhe damos. \u00c9 uma boa pobre!\u201d Ou seja, uma pobre \u00e0 medida dos crit\u00e9rios deles, bem comportada, que entra perfeitamente nos moldes do pobre ideal forjado ao longo dos s\u00e9culos, um pobre bem ao nosso gosto.<\/p>\n<p>Conheceis a consequ\u00eancia de tudo isto: a minha m\u00e3e n\u00e3o podia partilhar sem se justificar. Para poder partilhar teve que chegar a este ponto: era obrigada a mentir. Quando lhe propunham alguma coisa, sentia-se na obriga\u00e7\u00e3o de dizer que n\u00e3o tinha, porque se dissesse que tinha, poderiam responder-lhe assim: minha senhora, se j\u00e1 tem umas calcinhas fica sabendo que a sua vizinha n\u00e3o as tem. Ser\u00e1 que \u00e9 ajudada pelo Socorro Cat\u00f3lico? <span id='easy-footnote-1-3419' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/a-partilha\/#easy-footnote-bottom-1-3419' title='&lt;em&gt;O Socorro Cat\u00f3lico em Fran\u00e7a \u00e9 o equivalente em Portugal da CARITAS.&lt;\/em&gt;'><sup>1<\/sup><\/a><\/span> Ou ent\u00e3o diziam: \u201cela \u00e9 ajudada por outro lado.\u201d E depois acabariam por n\u00e3o lhe darem mais nada. A minha m\u00e3e tinha-se apercebido disso e assim sentia-se obrigada a mentir constantemente, a dizer que n\u00e3o tinha nada. E foi deste modo que vi l\u00e1 em casa montes de roupa sem utilidade alguma, s\u00f3 porque a minha m\u00e3e n\u00e3o tinha podido dizer: \u201cn\u00e3o precisamos disso.\u201d<\/p>\n<p>Dado que n\u00e3o aceitamos que o pobre se habitue a partilhar, a mais grave das consequ\u00eancias \u00e9 que acabamos por fazer dele um ser \u00e0 parte dos outros, um ser fechado sobre si mesmo, sem abertura para os outros. Com efeito, pensamos que o pobre n\u00e3o tem o direito de poder partilhar, pois passamos o tempo a lembrar-lhe que deve guardar para ele mesmo o que lhe \u00e9 dado, acontece que ele acaba por ficar apanhado por uma mentalidade de recusa do outro, do seu irm\u00e3o.<\/p>\n<p>A maioria das situa\u00e7\u00f5es conflituais que encontramos na vida dos pobres vem disto: n\u00e3o ensin\u00e1mos ao pobre a considerar aquele que se encontra a seu lado como um colaborador, um amigo, como algu\u00e9m com quem constru\u00edmos a vida em conjunto. Habitu\u00e1mo-lo a ver o outro como um rival, como algu\u00e9m que vai receber nas nossas vezes, como algu\u00e9m que \u00e9 um perigo para n\u00f3s. \u00c9 tudo isto que explica esta esp\u00e9cie de raiva em surdina que encontramos nos mais pobres, por exemplo em rela\u00e7\u00e3o aos negros, aos argelinos, <span id='easy-footnote-2-3419' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/a-partilha\/#easy-footnote-bottom-2-3419' title='&lt;em&gt; Argelino, \u00e1rabe. A guerra colonial entre a Fran\u00e7a e a Arg\u00e9lia (de 1954 \u00a0a 1962) deixou algumas feridas na maneira como estes dois povos, por vezes se encaram. As palavras \u201c\u00e1rabe\u201d e \u201cargelino\u201d, quando utilizadas com sentido pejorativo s\u00e3o disso uma manifesta\u00e7\u00e3o..'><sup>2<\/sup><\/a><\/span><\/em> aos estrangeiros. Assim podemos dar-nos conta da fratura que a pobreza provoca.<\/p>\n<p>Mas muito mais grave do que isto \u00e9 que a falta de uma mentalidade de partilha tamb\u00e9m se manifesta em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho. O mais pobre vai tentar roubar ao irm\u00e3o que se encontra a seu lado o trabalho e o p\u00e3o de cada dia dizendo: \u201dN\u00e3o passa de um insignificante \u00e1rabe.\u201d Mas h\u00e1 ainda pior do que tudo isto. Vejamos. Duas pessoas do mesmo bairro de lata, com uma exist\u00eancia sem brilho, considerando-se mutuamente como uma coisa sem import\u00e2ncia, como uma esp\u00e9cie de \u201cargelino\u201d sem nome, um Z\u00e9-ningu\u00e9m e que, embora habitem a mesma mis\u00e9ria, n\u00e3o conseguem tratar-se como dois irm\u00e3os lado a lado. Sendo assim, acontece que, quando os dois trabalham na mesma empresa, e que um conflito se apresenta no horizonte, um deles vai dizer mal ao patr\u00e3o ou ao contramestre do irm\u00e3o que trabalha a seu lado.<\/p>\n<p>Na verdade, para se valorizar, um homem deste mesmo meio social vai revelar ao patr\u00e3o tudo o que sabe sobre o irm\u00e3o em quest\u00e3o: pris\u00e3o, roubos, disputas \u2026 E f\u00e1-lo para guardar o seu lugar, at\u00e9 porque l\u00e1 bem no fundo dele pr\u00f3prio tem medo que o outro fa\u00e7a a mesma den\u00fancia. Esta recusa de ensinar os pobres a partilhar leva a que tanto no plano do trabalho como no plano de uma vida interior a comunidade se frature.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 mais grave: a recusa de ensinar os pobres a partilhar faz com que eles se tornem um instrumento de for\u00e7as religiosas, pol\u00edticas e econ\u00f3micas duma sociedade. Pois \u00e9 esta reserva de gente indiferente \u00e0s coisas da pol\u00edtica e da religi\u00e3o, esta massa de gente pouco definida que permite toda a esp\u00e9cie de autoritarismos, tanto ao n\u00edvel da f\u00e1brica como religioso, social e pol\u00edtico. Com efeito \u00e9 esta massa de gente que permite a todos os autoritarismos encontrar um complemento, uma reserva de for\u00e7a para se apoiar. Esta pessoa a quem n\u00e3o foi dada a possibilidade de ser solid\u00e1ria com o irm\u00e3o, ao rejeitar o homem que vive a seu lado, no fundo est\u00e1 sempre dispon\u00edvel para dar apoio seja a quem for contra o seu pr\u00f3prio grupo, sempre que a oportunidade se apresente. Todo este povo que considera nada ter a receber da Igreja, nem da Pol\u00edtica, nem da Fran\u00e7a, nem de ningu\u00e9m, este povo, toda agente o sabe, \u00e9 o menos revolucion\u00e1rio do mundo. Mas tamb\u00e9m podemos dizer no mundo inteiro que este povo \u00e9 o mais nacionalista que pode existir, pois este povo \u00e9 capaz de ir manifestar at\u00e9 \u00e0 Bastilha <span id='easy-footnote-3-3419' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/a-partilha\/#easy-footnote-bottom-3-3419' title='&lt;em&gt;A Revolu\u00e7\u00e3o Francesa de 1789 atacou logo de in\u00edcio a pris\u00e3o pol\u00edtica da Bastilha, em Paris, considerada como s\u00edmbolo da repress\u00e3o feita pela monarquia. A partir da\u00ed a Pra\u00e7a da Bastilha tornou-se um dos locais preferidos para fazer manifesta\u00e7\u00f5es.&lt;\/em&gt;'><sup>3<\/sup><\/a><\/span>, n\u00e3o para apoiar os irm\u00e3os oper\u00e1rios, mas sim para apoiar o governo, a Ordem, uma Ordem de que n\u00e3o tirou benef\u00edcio algum, uma Ordem que vai contra o seu pr\u00f3prio grupo, porque esta Ordem foi constru\u00edda sem se dar conta, nem uma s\u00f3 vez, que tanto este povo, como os seus irm\u00e3os existiam.<\/p>\n<p>A caridade \u00e9 querer partilhar com outro o que nos foi dado. Mas n\u00e3o basta querer faz\u00ea-lo, \u00e9 preciso ter o poder de o fazer. N\u00e3o h\u00e1 caridade se os pobres n\u00e3o aprenderem, atrav\u00e9s do bem que lhes fazemos, a partilhar com os irm\u00e3os; n\u00e3o h\u00e1 caridade se os pobres n\u00e3o se sentirem solid\u00e1rios com os irm\u00e3os partilhando com eles o que receberam, mesmo que isso implique uma pequena perda. Mas para chegar at\u00e9 a\u00ed h\u00e1 muita coisa a corrigir, muito caminho a construir.<\/p>\n<p>Primeiro que tudo \u00e9 preciso ter consci\u00eancia de que o nosso dom aos pobres deixa de ser nosso para lhes pertencer por inteiro, sem restri\u00e7\u00f5es. A partilha e a exig\u00eancia da caridade come\u00e7am quando n\u00f3s, realmente, nos sentimos respeitadores da vontade dos pobres, quando consideramos os bens que nos deram para eles, verdadeiramente para eles, como seu patrim\u00f3nio. Sendo assim, sentir-nos-emos obrigados a passar por eles, a contact\u00e1-los, a fazer com eles.<\/p>\n<p>Para terminar uma simples frase que ser\u00e1 o \u201cleitmotif\u201d da nossa reflex\u00e3o: \u00e9 muito mais agrad\u00e1vel e bem melhor dar do que receber. Receber, com o tempo, torna-se uma vergonha. Dar \u00e9 sempre uma promo\u00e7\u00e3o, porque o dom \u00e9 uma partilha de amor que nos honra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que \u00e9 partilhar? Aprendi-o quando era crian\u00e7a. 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