{"id":3726,"date":"2021-07-17T14:29:58","date_gmt":"2021-07-17T12:29:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/?p=3726"},"modified":"2021-07-17T15:00:59","modified_gmt":"2021-07-17T13:00:59","slug":"o-direito-de-ser-um-homem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/o-direito-de-ser-um-homem\/","title":{"rendered":"O direito de ser um homem"},"content":{"rendered":"<p>Quando falamos de Direitos do Homem, esquecemos muitas vezes que lutar por eles \u00e9 a mesma coisa que lutar pelo direito de ser um homem.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 ser um homem?<\/strong><\/p>\n<p>Ser um homem \u00e9 ser reconhecido como \u201cpessoa\u201d capaz de p\u00f4r em pr\u00e1tica os grandes atos da vida. Quais s\u00e3o estes grandes atos da nossa exist\u00eancia?<\/p>\n<p>S\u00e3o pensar, crer, amar, meditar. S\u00f3 se \u00e9 verdadeiramente homem na medida em que se tem a possibilidade de praticar estes atos!<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 um homem?<\/strong><\/p>\n<p>Um homem \u00e9 aquele que \u00e9 capaz de forjar as suas pr\u00f3prias ideias, n\u00e3o necessariamente sozinho, como \u00e9 evidente! Mas que \u00e9 capaz, a partir de uma escuta do mundo que o rodeia, de forjar as suas pr\u00f3prias ideias sobre Deus, sobre a significa\u00e7\u00e3o do belo, do verdadeiro, do bom, sobre si mesmo, sobre o sentido da vida, da morte, sobre o al\u00e9m. Aquele que \u00e9 verdadeiramente capaz de forjar as suas pr\u00f3prias ideias sobre os grandes temas da exist\u00eancia humana, esse \u00e9 um homem! No fundo, um homem, deste ponto de vista, pode resumir-se neste axioma filos\u00f3fico: tenho ideias, penso, por conseguinte sou um humano! Amo, por conseguinte sou um humano! Medito, por conseguinte sou um humano! Rezo, por conseguinte sou um humano! Creio, por conseguinte sou um homem!<\/p>\n<p>Ora o drama do subprolet\u00e1rio <span id='easy-footnote-1-3726' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/o-direito-de-ser-um-homem\/#easy-footnote-bottom-1-3726' title='A express\u00e3o &lt;strong&gt;Subproletariado&lt;\/strong&gt; designa a popula\u00e7\u00e3o que ocupa o n\u00edvel mais baixo da escala social. Trata-se de pessoas com muito poucos meios de forma\u00e7\u00e3o cultural ou profissional, que executa trabalhos rudimentares e prec\u00e1rios. Esta popula\u00e7\u00e3o vive quase sempre na extrema pobreza'><sup>1<\/sup><\/a><\/span> consiste, precisamente, em n\u00e3o ter esta possibilidade. Mas por que motivo n\u00e3o tem ele esta mesma possibilidade? Porque n\u00e3o se encontra em condi\u00e7\u00f5es para se poder p\u00f4r a si-mesmo as quest\u00f5es essenciais sobre a vida. Um ser humano possui um esp\u00edrito organizado, \u00e9 capaz de avan\u00e7ar no seu pensamento, de o levar at\u00e9 ao fim e, por consequ\u00eancia, \u00e9 capaz de interiorizar tudo o que ouviu, aprendeu, viu, observou e fazer com que tudo isso seja mais do que um objeto exterior para se tornar reflex\u00e3o interior, uma esp\u00e9cie de identifica\u00e7\u00e3o de si-mesmo; ao mesmo tempo, integrar o que foi adquirido numa globalidade familiar, social inserindo tudo num contexto, de maneira a dar-lhe um significado nesse mesmo contexto.<\/p>\n<p>Numa palavra, que se torne parte do universal. N\u00e3o h\u00e1 ser humano, quando um homem \u00e9 incapaz de ter um esp\u00edrito que o conduza at\u00e9 \u00e0 universalidade. \u00c9 por isso que n\u00f3s falamos tanto de mem\u00f3ria no seio do nosso Movimento (ATD Quarto Mundo) porque s\u00f3 um Movimento pode introduzir o Quarto Mundo <span id='easy-footnote-2-3726' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/o-direito-de-ser-um-homem\/#easy-footnote-bottom-2-3726' title='&lt;strong&gt;Quarto Mundo&lt;\/strong&gt; designa a popula\u00e7\u00e3o que vive na mis\u00e9ria em todo e qualquer pa\u00eds, mesmo nos mais ricos. &lt;strong&gt;O Movimento ATD Quarto Mundo&lt;\/strong&gt; recebeu do seu fundador a miss\u00e3o de introduzir o pensamento e a voz dos mais pobres nos locais onde os homens tomam decis\u00f5es, de maneira a que todos possam contribuir e beneficiar da mesma e \u00fanica humanidade.'><sup>2<\/sup><\/a><\/span> no universal e assim muni-lo de um esp\u00edrito universal!<\/p>\n<p>Resumindo, um homem, um ser humano \u00e9 aquele que pode responder a estas tr\u00eas quest\u00f5es fundamentais:<\/p>\n<p>A primeira quest\u00e3o: \u201cQuem \u00e9s tu? \u2013 Eu sou um homem!\u201d<\/p>\n<p>A segunda: \u201c Onde habitas tu? \u2013 Habito a terra! Sou terr\u00edcola! Sou um ser humano aqui de baixo!\u201d<\/p>\n<p>A terceira: \u201cQue fazes tu? \u2013 Eu construo o mundo!\u201d<\/p>\n<p>Um ser humano que n\u00e3o tenha consci\u00eancia de construir o mundo \u00e9 um parasita, um in\u00fatil. O Quarto Mundo \u00e9 muito consciente disso. \u00c9 muito consciente disso e, no fundo, \u00e9 por isso que nos inveja tanto. No fundo, \u00e9 esta a dificuldade que temos para nos encontrarmos com o Quarto Mundo, sejamos volunt\u00e1rios ATD <span id='easy-footnote-3-3726' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/o-direito-de-ser-um-homem\/#easy-footnote-bottom-3-3726' title='O &lt;strong&gt;Voluntariado Permanente&lt;\/strong&gt; \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o do Padre Joseph Wresinski e das fam\u00edlias mais pobres com quem vivia no acampamento de Noisy-le-Grand. Nessa cria\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m colaboraram os primeiros Volunt\u00e1rios. Tem por miss\u00e3o apoiar de modo duradoiro as fam\u00edlias mais pobres, partilhando com elas a vida nos locai onde moram, tais como bairros de lata, favelas. Estando inteiramente ao servi\u00e7o dos mais pobres, os Volunt\u00e1rios abdicaram de uma vida profissional, recebendo cada um deles o equivalente ao sal\u00e1rio m\u00ednimo da regi\u00e3o onde se encontram, todos por igual. '><sup>3<\/sup><\/a><\/span> ou n\u00e3o\u2026 Com efeito, a popula\u00e7\u00e3o, o subproletariado tem inveja de n\u00f3s, porque podemos responder a estas tr\u00eas perguntas: Quem \u00e9s tu? Onde habitas? Que fazes? Tem consci\u00eancia disso. Sabe-o muito bem.<\/p>\n<p>Eu, que nasci no Quarto-Mundo, este era para mim um sentimento de inveja constante. N\u00e3o conheci outra coisa no meu mundo e, \u00e0 minha volta, todos os que encontrei, ao longo destes cinquenta anos nunca disseram outra coisa!<\/p>\n<p><strong>A capacidade de amar<\/strong><\/p>\n<p>Uma segunda condi\u00e7\u00e3o, uma condi\u00e7\u00e3o para poder realmente exprimir o que somos, o ser humano que somos chamados a ser, \u00e9 ter capacidade para amar! Ou seja ter capacidade para introduzir os outros no \u00e2mbito das nossas pr\u00f3prias preocupa\u00e7\u00f5es!<\/p>\n<p>Amar \u00e9 isto, \u00e9 colocar os outros no circuito das nossas pr\u00f3prias preocupa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o nas preocupa\u00e7\u00f5es secund\u00e1rias, mas sim nas preocupa\u00e7\u00f5es superiores! Amar \u00e9 pois dar a garantia aos outros de que eles s\u00e3o importantes para n\u00f3s! Que s\u00e3o importantes n\u00e3o s\u00f3 porque \u00e9 esse o nosso ponto de vista, mas sobretudo porque o s\u00e3o em si mesmos, j\u00e1 que a import\u00e2ncia que neles existe lhes \u00e9 inerente. \u00c9 esta import\u00e2ncia que se encontra em cada pessoa, que faz de cada ser humano aquilo que ele \u00e9, algu\u00e9m que conta para n\u00f3s\u2026 Porque \u00e9 disso que o Quarto Mundo precisa\u2026 S\u00f3 ent\u00e3o deixar\u00e1 cair por terra os seus sentimentos de inveja.<\/p>\n<p>Com efeito isso s\u00f3 acontecer\u00e1 no momento em que a outra pessoa sentir que n\u00f3s a consideramos verdadeiramente em p\u00e9 de igualdade connosco, n\u00e3o porque nos pode ser \u00fatil para isto ou para aquilo, n\u00e3o porque precisamos dela para quebrarmos a nossa solid\u00e3o, mas sim porque em si mesma ela possui uma import\u00e2ncia inalien\u00e1vel!<\/p>\n<p>Isto, o Quarto Mundo sabe-o muito bem! E n\u00e3o \u00e9 porque n\u00e3o tem um pensamento estruturado que vamos imaginar que n\u00e3o \u00e9 capaz de ver mais longe do que uma lasca de madeira, um calhau, um pingo de \u00e1gua. Nada disso! Em certos momentos de clarivid\u00eancia, o Quarto Mundo dir-te-\u00e1 como o disse a mim milhares de vezes: <em>\u201cPresto-te um servi\u00e7o! Dou-te jeito!\u201d\u2026<\/em><\/p>\n<p><em>\u201cDou-te jeito<\/em>!\u201d Esta \u00e9 na realidade uma verdade que nos pode dizer a cada um de n\u00f3s. <em>\u201cDou-te jeito! Precisas de mim, n\u00e3o porque sou o que sou\u2026mas sim para fazeres as tuas teses, para exprimires o teu saber, para realizares coisas, para levares a bom termo o teu combate! Sou-te \u00fatil, n\u00e3o pelo que sou, mas sim porque te proporciono alguma coisa\u2026 que ali\u00e1s guardar\u00e1s ciosamente para ti.\u201d<\/em><\/p>\n<p>O Movimento ATD Quarto Mundo escolheu, entre todos, este outro constitu\u00eddo pela pessoa mais ferida, mais desfavorecida! Escolheu-a porque \u00e9 importante em si mesma, porque tem muita considera\u00e7\u00e3o por ela! Com efeito, no \u00e2mago do Movimento est\u00e1 a pessoa que se encontra no degrau mais baixo da escala social e, por conseguinte, mais privada de poder, de um pensamento estruturado, mais privada de possibilidades de amar. \u00c9 a esta pessoa que o Movimento deseja juntar-se!<\/p>\n<p>Ir ao encontro desta pessoa, consider\u00e1-la importante em si mesma, por ela mesma antes de qualquer outra \u00e9 o que o Movimento vos prop\u00f5e. \u00c9 ela que conta para n\u00f3s. O nosso irm\u00e3o \u00e9 esta pessoa. Ela \u00e9 a nossa op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Fazer ressurgir o ser humano das profundezas da mis\u00e9ria<\/strong><\/p>\n<p>A nossa luta pelos direitos humanos resume-se nisto: fazer ressurgir como ser humano aquele que se encontra nas profundezas, no degrau mais baixo da escala social, para que encontre as faculdades de um pensamento estruturado e as possibilidades de amar que traz nele desde que nasceu, pois todo o ser humano assim que nasce traz nele estas faculdades, estas possibilidades em pot\u00eancia. Digo isto sem querer fazer refer\u00eancia \u00e0 doutrina de Rousseau <span id='easy-footnote-4-3726' class='easy-footnote-margin-adjust'><\/span><span class='easy-footnote'><a href='https:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/o-direito-de-ser-um-homem\/#easy-footnote-bottom-4-3726' title='&lt;strong&gt;Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). &lt;\/strong&gt;\u00c9 um escritor e fil\u00f3sofo de l\u00edngua francesa nascido em Genebra. \u00c9 o autor de uma corrente filos\u00f3fica constru\u00edda a partir da ideia que o homem \u00e9 naturalmente bom. Para ele \u00e9 a influ\u00eancia dos outros que torna os humanos maus e que conduz ao crescimento das desigualdades.'><sup>4<\/sup><\/a><\/span> de maneira rid\u00edcula.<\/p>\n<p>Todo o ser humano \u00e9 feito para pensar! \u00c9 feito para amar! Qual \u00e9 o mo\u00e7o, qual \u00e9 a mo\u00e7a que n\u00e3o o sabe? Um jovem com 16 anos sabe-o muito bem. N\u00e3o o saber\u00e1 um adulto com 40 anos?<\/p>\n<p>Mas uma vida cheia de injusti\u00e7as, de desigualdades, de depend\u00eancias acabou por deteriorar estas faculdades. Na realidade uma pessoa do Quarto Mundo \u00e9 um ser humano mutilado a quem, permitam-me esta imagem, cortaram as asas.<\/p>\n<p>Como fazer ressurgir esta pessoa das profundezas do infort\u00fanio, da mis\u00e9ria, da solid\u00e3o? Como fazer ressurgir esta pessoa que se nos depara como um estranho?<\/p>\n<p>\u00c9 um estranho para n\u00f3s. Vejamos. Do ponto de vista geogr\u00e1fico encontra-se sempre fora dos bairros citadinos. At\u00e9 h\u00e1 quem diga: \u00e9 um exclu\u00eddo. Al\u00e9m disso tamb\u00e9m \u00e9 um estranho do ponto de vista social, cultural e religioso. N\u00e3o faz parte de nenhuma espiritualidade. N\u00e3o pertence a nenhum Deus. Resumindo numa palavra, n\u00e3o tem identidade alguma. Este ser humano que queremos fazer ressurgir n\u00e3o passa de um estranho sem identidade.<\/p>\n<p>Mas isto n\u00e3o \u00e9 uma realidade s\u00f3 de hoje, pois isto sempre foi a condi\u00e7\u00e3o dos mais pobres em \u00c1frica, na Am\u00e9rica Latina, na \u00cdndia, na Austr\u00e1lia\u2026 ou seja em todos os continentes. Nos cinco continentes! Ningu\u00e9m conseguir\u00e1 encontrar em nenhum destes cinco continentes um s\u00f3 ser humano vivendo no degrau mais baixo da escala social que n\u00e3o seja um estranho, um estrangeiro!<\/p>\n<p>Mas acontece, por\u00e9m que um estranho \u00e9 algu\u00e9m que tem medo dos outros, das outras pessoas. Quando qualquer coisa de ins\u00f3lito, de fora do habitual se cruza no seu caminho\u2026 ent\u00e3o atrapalha-se, perde o p\u00e9; ent\u00e3o deixa de refletir. Entra em p\u00e2nico e fica desnorteado. Mas porqu\u00ea? Porque \u00e9 uma pessoa que n\u00e3o \u00e9 reconhecida pelas outras pessoas! Na verdade, a pessoa que lhe aparece pela frente \u00e9 sempre sentida como algu\u00e9m que pode introduzir-lhe na vida o ins\u00f3lito, o imprevis\u00edvel, o embara\u00e7o, o enquadramento, a recupera\u00e7\u00e3o. Ora isto o Quarto Mundo sabe-o muito bem e porque o viveu, tamb\u00e9m o transmite de pais para filhos, de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que o Quarto Mundo tem medo dos padres, dos presidentes da c\u00e2mara, dos professores, das assistentes sociais; \u00e9 por isso que tem medo de todos os que, \u00e0 sua volta, possuem alguma esp\u00e9cie de poder. O Quarto Mundo at\u00e9 tem medo do volunt\u00e1rio, do aliado do nosso Movimento quando se aproxima dele. Tem medo de n\u00f3s. E um ser humano que tenha medo n\u00e3o pode dar asas ao seu pensamento. N\u00e3o pode realizar os gestos essenciais \u00e0 sua pr\u00f3pria vida, \u00e0 sua defini\u00e7\u00e3o como ser humano. N\u00e3o pode ser um humano. Deste modo, um homem sem estatuto, sem reconhecimento, um ser humano que se sente um estranho no meio dos irm\u00e3os s\u00f3 pode considerar-se um in\u00fatil. O Quarto Mundo, tendo um grande sentimento da sua inutilidade, deixa-se morrer, esmorece, perde o \u00e2nimo.<\/p>\n<p>Quando falamos de inutilidade, referimo-nos sobretudo ao trabalho. \u00c9 normal, pois vivemos numa sociedade onde o trabalho conta muito. Por\u00e9m h\u00e1 inutilidades que s\u00e3o bem mais graves. H\u00e1 inutilidades sociais, familiares; h\u00e1 inutilidades religiosas, espirituais, culturais\u2026 Uma pessoa do Quarto Mundo sente-se um in\u00fatil a todos os n\u00edveis.<\/p>\n<p><strong>Da solidariedade \u00e0 fraternidade<\/strong><\/p>\n<p>Ora o dever de um ser humano (e isto deve ser defendido pelos direitos fundamentais) \u00e9 de se encontrar no lugar onde poder\u00e1 ser mais \u00fatil \u00e0 sociedade, no meio de seus irm\u00e3os e irm\u00e3s. Acontece por\u00e9m, que isto \u00e9 imposs\u00edvel para o Quarto Mundo! Mas \u00e9 por isso mesmo que n\u00f3s (ATD) vamos ao encontro do Quarto Mundo! \u00c9 por isso mesmo que n\u00f3s fazemos uma op\u00e7\u00e3o fundamental, priorit\u00e1ria por este homem, por esta mulher, nosso irm\u00e3o, nossa irm\u00e3, por este povo que \u00e9 o meu; sim, eles s\u00e3o pessoalmente o meu pr\u00f3prio povo, pois foi isto que fui compreendendo a partir do dia em que comecei a entender o povo no meio do qual eu vivia, a perceber as pessoas que viviam \u00e0 minha volta. Eu pr\u00f3prio me sentia um estranho apanhado por um medo constante, sentia-me como um incapaz sem utilidade alguma!<\/p>\n<p>A primeira rea\u00e7\u00e3o, a primeira a\u00e7\u00e3o concreta em que o Movimento ATD se investe ao servi\u00e7o deste ser humano \u00e9, logo de in\u00edcio, a solidariedade. N\u00f3s somos solid\u00e1rios com esta popula\u00e7\u00e3o, ou seja, n\u00f3s recusamos as estruturas, os sistemas que esmagam, por causa da injusti\u00e7a, da falta de liberdade, por causa da depend\u00eancia, por causa da ignor\u00e2ncia que frequentemente se procura e se deseja para o Quarto Mundo. Tudo isto acaba por impedir esta popula\u00e7\u00e3o de poder servir-se de um pensamento, de uma reflex\u00e3o estruturada e de ser capaz de realizar os gestos essenciais pr\u00f3prios de um ser humano, de um homem\u2026<\/p>\n<p>A segunda a\u00e7\u00e3o que n\u00f3s realizamos consiste em transformar a solidariedade em fraternidade. A solidariedade n\u00e3o basta para entrar dentro do ser humano, para se ir ao encontro da nossa realidade humana.<\/p>\n<p>Precisamos que a solidariedade se transforme em fraternidade\u2026 \u00c9 a isto que o Movimento ATD vos chama! Criar fraternidade entre n\u00f3s e com o Quarto Mundo, eis o que n\u00f3s, volunt\u00e1rios, procuramos. Ou seja, fazer com que a outra pessoa seja verdadeiramente reconhecida como meu igual e que, gra\u00e7as a essa igualdade, ela tenha o direito de receber de mim, o melhor do que sou. Pois a fraternidade consiste na partilha do melhor de cada um. N\u00e3o se trata de reciprocidade num combate, numa luta. Isso n\u00e3o!<\/p>\n<p>Com efeito, a fraternidade faz com que o outro tenha um certo direito sobre n\u00f3s, o que n\u00e3o acontece na solidariedade, pois, neste caso, a outra pessoa, quando muito, n\u00e3o \u00e9 mais do que um companheiro com quem temos alguma coisa de comum. A fraternidade \u00e9 mais do que isso. Ela implica um certo direito do outro sobre n\u00f3s mesmos. Deste modo, a outra pessoa adquire o direito de nos pedir aquilo que n\u00e3o tem e lhe \u00e9 necess\u00e1rio, assim como n\u00f3s adquirimos o de lhe pedir o que n\u00e3o temos. \u00c9 isto a fraternidade: uma responsabilidade comum, tanto de uns como dos outros, de partilhar.<\/p>\n<p>A partir de agora, entramos em cheio no cora\u00e7\u00e3o de um desafio! Na verdade, j\u00e1 n\u00e3o somos s\u00f3 n\u00f3s que partilhamos, mas \u00e9 tamb\u00e9m o Quarto Mundo que partilha connosco! N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o Quarto Mundo que se encontra na situa\u00e7\u00e3o de quem pede, somos tamb\u00e9m n\u00f3s que nos encontramos nessa mesma situa\u00e7\u00e3o. A fraternidade \u00e9 assim, \u00e9 isso mesmo.<\/p>\n<p><strong>Acesso ao conhecimento, acesso ao respeito<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o se trata para n\u00f3s unicamente de ensinar a ler, de ensinar a escrever, a contar \u00e0 maneira de um ensino de recupera\u00e7\u00e3o, como se fosse uma esp\u00e9cie de repara\u00e7\u00e3o do mal feito. Tamb\u00e9m n\u00e3o se trata de uma maneira de incutir gosto pela escola atrav\u00e9s de a\u00e7\u00f5es culturais, bibliotecas de rua, o que poder\u00edamos denominar como uma esp\u00e9cie de preven\u00e7\u00e3o\u2026 N\u00e3o, n\u00e3o se trata unicamente disso. O que nos interessa n\u00e3o \u00e9 somente despertar nas pessoas a curiosidade, a aten\u00e7\u00e3o, p\u00f4r \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o v\u00e1rios m\u00e9todos. Para n\u00f3s trata-se, e \u00e9 muito importante refletir nisso, de forjar o esp\u00edrito e o cora\u00e7\u00e3o dos homens, das crian\u00e7as e das mulheres do subproletariado. E, no mesmo impulso, forjar de novo o nosso pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Aqui h\u00e1 tempos, falou-se muito de um famoso olhar hipn\u00f3tico. Bastava dirigir o olhar sobre algu\u00e9m e logo a pessoa ficava a saber ler e escrever. Uma coisa formid\u00e1vel! Mas porqu\u00ea? Porque tanto aquele que se encontra \u00e0 nossa frente como n\u00f3s pr\u00f3prios somos pessoas transformadas, diferentes, somos homens renovados que se encontram e, por conseguinte, somos seres humanos capazes de ensinar aquilo que aprendemos de outros: a solidariedade que conduz \u00e0 partilha e a fraternidade que nos inspira o respeito. Pois, o contributo verdadeiramente importante que podemos p\u00f4r \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos mais pobres, como de n\u00f3s mesmos \u00e9 o respeito de n\u00f3s e o respeito dos outros.<\/p>\n<p>Parece-me que ainda n\u00e3o insistimos o suficiente no facto de que, fundamentalmente, contribuir para o acesso da popula\u00e7\u00e3o ao conhecimento consiste, antes de mais, num contributo ao acesso do respeito. Pois a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 incapaz de se respeitar, de respeitar os outros, porque est\u00e1 apanhada, fechada na necessidade. Acontece que os homens e mulheres que se encontram fechados na necessidade se sentem obrigados a realizar os gestos que a vida ou o instinto lhes imp\u00f5e.<\/p>\n<p>Eis o que \u00e9 o Movimento ATD, eis o que vos queria dizer!<\/p>\n<p>O que este Movimento pretende \u00e9 forjar o nosso pr\u00f3prio esp\u00edrito, o nosso pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o, assim como o dos pobres, dos mais pobres. Mas tamb\u00e9m queremos criar uma abertura para a esperan\u00e7a.<\/p>\n<p>A esperan\u00e7a \u00e9, com efeito, uma luz lan\u00e7ada na vida das pessoas e que entra na vida delas para nunca mais as abandonar; \u00e9 como um esplendor que deslumbra a vida dos homens!<\/p>\n<p><strong>Aprender e ensinar a esperan\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Para n\u00f3s e por causa de n\u00f3s mesmos a esperan\u00e7a consiste no facto de acreditarmos que a mis\u00e9ria n\u00e3o \u00e9 uma obra inevit\u00e1vel do destino, que a extrema pobreza pode ser destru\u00edda, que n\u00e3o \u00e9 mais do que um acidente ocasional na vida da humanidade at\u00e9 porque a mis\u00e9ria \u00e9 o oposto da humanidade! S\u00e3o incompat\u00edveis! Inconcili\u00e1veis!<\/p>\n<p>Acreditamos verdadeiramente que todos os humanos podem trabalhar para destruir a mis\u00e9ria. \u00c9 esta a nossa esperan\u00e7a: conseguiremos destruir a extrema pobreza, porque todos os homens s\u00e3o chamados a isso, a come\u00e7ar pelos mais pobres! Eles n\u00e3o a destruir\u00e3o da mesma maneira que n\u00f3s\u2026 N\u00e3o tenhamos sobre isso nenhumas ilus\u00f5es! Os mais pobres encontrar\u00e3o uma maneira pr\u00f3pria, especial e particular para proclamarem o amor, para proclamarem a liberdade, a verdade, a igualdade, a morte e a vida!<\/p>\n<p>Haver\u00e1 toda uma filosofia a surgir, a brotar do Quarto Mundo que nos permitir\u00e1 afirmar, com verdade, que esta luz que difundimos sobre as pegadas, sobre o caminhar desta popula\u00e7\u00e3o nos ser\u00e1 devolvida em raios luminosos e ardentes, porque a popula\u00e7\u00e3o mais pobre pode ensinar-nos tudo sobre a esperan\u00e7a! Tudo sobre o amanh\u00e3! Tudo sobre o futuro, tudo sobre a sociedade que podemos criar com as nossas m\u00e3os!<\/p>\n<p>Forjar o esp\u00edrito e o cora\u00e7\u00e3o\u2026 fazer dos homens e mulheres do Quarto Mundo os artes\u00e3os da destrui\u00e7\u00e3o da extrema pobreza, da sua pr\u00f3pria pobreza, da pobreza que afeta toda a humanidade! Mas tamb\u00e9m forjar nos seres humanos a capacidade de amar!<\/p>\n<p>Nenhum ser humano pode ser tratado como um estrangeiro, um estranho ao cimo da terra! Nenhum ser humano deve ter medo de nela viver! Ningu\u00e9m deve estar condenado a viver nela como um in\u00fatil.<\/p>\n<p>\u00c9 disto que nos devemos constantemente lembrar, quando entramos num bairro, \u00e9 esta a quest\u00e3o que nos devemos sempre p\u00f4r: quando eu deixar este bairro, as crian\u00e7as que l\u00e1 vivem sentir-se-\u00e3o menos como estramgeiros para a sociedade? Ter\u00e3o menos medo? Sentir-se-\u00e3o mais \u00fateis?<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, nesse mesmo momento, estaremos a introduzi-las na esperan\u00e7a e no amor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"ConnectiveDocSignExtentionInstalled\" data-extension-version=\"1.0.4\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando falamos de Direitos do Homem, esquecemos muitas vezes que lutar por eles \u00e9 a mesma coisa que lutar pelo (&#8230;) <a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/o-direito-de-ser-um-homem\/\">Read more <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":3619,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"ep_exclude_from_search":false,"footnotes":""},"categories":[138,59],"tags":[],"class_list":["post-3726","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-escritos","category-portugues"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.2 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O direito de ser um homem - Joseph Wresinski EN<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/o-direito-de-ser-um-homem\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"en_US\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"O direito de ser um homem - Joseph Wresinski EN\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Quando falamos de Direitos do Homem, esquecemos muitas vezes que lutar por eles \u00e9 a mesma coisa que lutar pelo (...) 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