{"id":4380,"date":"2023-01-13T15:35:11","date_gmt":"2023-01-13T14:35:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/?p=4380"},"modified":"2023-01-13T15:38:41","modified_gmt":"2023-01-13T14:38:41","slug":"o-pensamento-dos-mais-pobres-em-um-conhecimento-que-leva-a-luta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/o-pensamento-dos-mais-pobres-em-um-conhecimento-que-leva-a-luta\/","title":{"rendered":"O pensamento dos mais pobres em um conhecimento que leva \u00e0 luta"},"content":{"rendered":"<p><strong>Observa\u00e7\u00f5es introdut\u00f3rias <\/strong><\/p>\n<p>Ao encontr\u00e1-los esta manh\u00e3 dentro das paredes da UNESCO, e ao agradecer-lhes por terem respondido ao nosso chamado para se reunirem neste m\u00eas de dezembro, que j\u00e1 \u00e9 um m\u00eas muito ocupado para cada um de n\u00f3s, lembro que voc\u00eas, os acad\u00eamicos, os pesquisadores cient\u00edficos, os especialistas, t\u00eam respondido fielmente aos apelos do Movimento\u00a0 ATD Quarto Mundo h\u00e1 quase 25 anos. Quase um quarto de s\u00e9culo de lealdade, de preocupa\u00e7\u00f5es e esperan\u00e7as compartilhadas por voc\u00eas e pela comunidade da pesquisa que voc\u00eas representam.<\/p>\n<p>Nosso Movimento, que criou seu pr\u00f3prio Instituto de Pesquisa em 1960, tamb\u00e9m criou a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria de acolhimento e colabora\u00e7\u00e3o com uma rede internacional de pesquisadores externos. Eles vieram, primeiro como amigos, depois como colaboradores individuais. Em seguida, a partir de 1964, todos n\u00f3s sentimos a necessidade de formar um grupo, de falar e agir como um grupo, tanto para fortalecer um ao outro como para ter mais peso no mundo ao nosso redor.<\/p>\n<p>Assim, n\u00e3o \u00e9 uma novidade na hist\u00f3ria do Movimento\u00a0 se reunir como um grupo, como um Comit\u00ea Permanente, em dezembro de 1980. Exceto talvez pela no\u00e7\u00e3o de perman\u00eancia. Pois embora todos estiv\u00e9ssemos de acordo h\u00e1 algum tempo, foi somente em outubro de 1979 que proclamamos juntos e publicamente a necessidade de ver nascer e se consolidar, na vida p\u00fablica internacional, um grupo verdadeiramente duradouro, assumindo de forma cont\u00ednua uma fun\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel em nossas comunidades nacionais e internacionais.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 da hist\u00f3ria do atual Comit\u00ea Permanente sobre Pobreza e Exclus\u00e3o nem da necessidade de que ele seja duradouro que eu queria falar com voc\u00eas, sen\u00e3o lhes dar as boas-vindas &#8211; de todo o cora\u00e7\u00e3o &#8211; nesta manh\u00e3. Discutimos tudo isso no Comit\u00ea e em seus subgrupos desde outubro de 1979, e a ess\u00eancia de nosso pensamento comum est\u00e1 refletida nos documentos escritos do Comit\u00ea.<\/p>\n<p>O que eu gostaria de falar esta manh\u00e3 \u00e9 sobre as fun\u00e7\u00f5es do Comit\u00ea, ou mais precisamente, uma de suas fun\u00e7\u00f5es. Trata-se de uma fun\u00e7\u00e3o que nenhum dos grupos que precederam o seu em nosso Movimento (e que, tanto quanto sei, nenhum corpo no mundo) jamais assumiu. \u00c9 fun\u00e7\u00e3o a (e eu diria de boa vontade o dever) dos pesquisadores no \u00e2mbito da pobreza, de deixar espa\u00e7o para o conhecimento que os pr\u00f3prios mais pobres t\u00eam de sua condi\u00e7\u00e3o. Dar lugar a esse conhecimento, reabilit\u00e1-lo como \u00fanico e indispens\u00e1vel, aut\u00f4nomo e complementar a todas as outras formas de conhecimento, e ajud\u00e1-lo a se desenvolver. E a esta fun\u00e7\u00e3o, como voc\u00eas podem imaginar, soma-se outra: a de abrir espa\u00e7o, reabilitar e ajudar a consolidar o conhecimento que aqueles que vivem e agem entre e com os mais pobres podem ter.<\/p>\n<p>Certamente esta n\u00e3o \u00e9 a primeira vez que falamos com voc\u00ea sobre estas duas facetas de um conhecimento global do qual a sua, a do observador externo, \u00e9 a terceira. N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que falamos sobre isto, mas em vista do trabalho que nos espera durante estes tr\u00eas dias, e tamb\u00e9m em vista do trabalho que come\u00e7amos a empreender a m\u00e9dio prazo, gostaria simplesmente de me dar a liberdade de esclarecer algumas ideias que o Movimento possui sobre este assunto. Ideias que nasceram e amadureceram ao longo dos 25 anos em que as pessoas mais pobres e as pessoas de a\u00e7\u00e3o o conheceram. Permitam-me fazer uma pausa por um momento.<\/p>\n<p><strong>I &#8211; Conhecimento universit\u00e1rio da pobreza, um conhecimento complementar a outros<\/strong><\/p>\n<p>As perguntas que nosso Movimento se faz e que nosso Comit\u00ea tamb\u00e9m se faz s\u00e3o, me parece, as seguintes:<\/p>\n<p>&#8211; Que conhecimento necessitam as pessoas mais pobres?<\/p>\n<p>&#8211; Que conhecimento necessitam as equipes de a\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; e que conhecimento necessitam nossas sociedades nacionais e a comunidade internacional para combater eficazmente a pobreza e a exclus\u00e3o?<\/p>\n<p>Poder\u00edamos dizer, sem d\u00favida, que em nossas pr\u00f3prias vidas e em nossas pr\u00f3prias lutas, atravessamos um per\u00edodo na hist\u00f3ria em que a resposta \u00e0 pergunta &#8220;que conhecimento?&#8221; era, em grande medida, o conhecimento acad\u00eamico. Muitos de n\u00f3s esper\u00e1vamos que o conhecimento mais \u00fatil para a luta e, portanto, para a promo\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas e legisla\u00e7\u00e3o, fosse o tipo de conhecimento que pode ser constru\u00eddo nas universidades e outras institui\u00e7\u00f5es de pesquisa. Esper\u00e1vamos muito daquela parcela de conhecimento \u00e0 qual podem ter acesso os pesquisadores, os acad\u00eamicos, os cientistas em uma posi\u00e7\u00e3o de observa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m uma condi\u00e7\u00e3o de vida estranha \u00e0 dos menos favorecidos.<\/p>\n<p>Este conhecimento foi altamente valorizado devido a seu m\u00e9todo, seu rigor, sua objetividade ou sua &#8220;neutralidade&#8221;. Estes eram aspectos tranquilizadores para aqueles que, diante da imensa complexidade dos problemas e, tamb\u00e9m, diante da forma subjetiva com que os pol\u00edticos lidavam com eles e os apresentavam, queriam encontrar uma verdade objetiva que pudesse orientar uma a\u00e7\u00e3o l\u00facida e verdadeiramente eficaz para os pobres.<\/p>\n<p>A Universidade teve assim seu apogeu como garantia de seguran\u00e7a diante de problemas t\u00e3o dif\u00edceis de entender; seu apogeu como ref\u00fagio para aqueles que n\u00e3o queriam ser confundidos ou enganados por ideologias, sejam elas &#8220;dominantes&#8221; ou &#8220;dominadas&#8221;. Houve um tempo em que n\u00f3s mesmos talvez quis\u00e9ssemos fazer isso com nossas universidades. Provavelmente n\u00e3o est\u00e1vamos errados, mas tamb\u00e9m n\u00e3o est\u00e1vamos inteiramente certos.<\/p>\n<p>Entretanto, n\u00e3o \u00e9 a descoberta geral da n\u00e3o-neutralidade, da n\u00e3o-objetividade da ci\u00eancia e, em particular, das ci\u00eancias humanas e sociais, que nos faz errar hoje. N\u00e3o \u00e9 o conhecimento de que todas as nossas ci\u00eancias e metodologias de pesquisa est\u00e3o agora manchadas pela ideologia que nos faz dizer que n\u00e3o est\u00e1vamos muito certos. Estes s\u00e3o problemas interessantes, mas secund\u00e1rios, em nossa opini\u00e3o.<\/p>\n<p>O problema b\u00e1sico que n\u00e3o reconhecemos bem e que ainda n\u00e3o superamos \u00e9 que o conhecimento acad\u00eamico sobre a pobreza e a exclus\u00e3o &#8211; como de qualquer outra realidade humana &#8211; \u00e9 parcial. N\u00e3o temos dito, ou mesmo nos compreendido o bastante, que s\u00f3 pode ser um conhecimento indireto e informativo, que lhe falta o dom\u00ednio da realidade e, portanto, falta o que faz com que o conhecimento mobilize e provoque a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Muitos de n\u00f3s sentimos, ocasionalmente, uma certa decep\u00e7\u00e3o ao ver um ou outro de nossos estudos permanecer sem efeito. Talvez n\u00e3o tenhamos pensado o bastante, ent\u00e3o, que a pesquisa acad\u00eamica no sentido estrito deve necessariamente dar origem a uma forma de abstra\u00e7\u00e3o, a uma imagem da realidade, vista de fora e traduzida em termos gerais que n\u00e3o refletem mais o sentimento, a cor das coisas que levam os homens a querer agir para outros homens. N\u00e3o pensamos o suficiente sobre o fato de que, no conhecimento global sobre pobreza e exclus\u00e3o que deve, ao mesmo tempo, informar, explicar e mobilizar, a pesquisa cient\u00edfica deve se reconhecer como um componente entre outros: o componente informativo, &#8220;sem vida&#8221;, pode se dizer, porque permanece sem vida enquanto n\u00e3o encontrarmos essas duas outras partes do conhecimento ao seu lado:<\/p>\n<p>&#8211; o conhecimento que possuem os pobres, os exclu\u00eddos que vivem, de dentro, tanto a sua condi\u00e7\u00e3o quanto a realidade do mundo que lhes \u00e9 imposta,<\/p>\n<p>&#8211; e o conhecimento daqueles que atuam entre e com as v\u00edtimas em \u00e1reas de extrema pobreza e de exclus\u00e3o.<\/p>\n<p>Apanhados na armadilha de uma sociedade que acreditava na supremacia do conhecimento universit\u00e1rio, nossas universidades acreditavam, e n\u00f3s acreditamos com elas, que era do conhecimento acad\u00e9mico que o mundo precisava para combater a pobreza. E quando os estudos e pesquisas desapareciam nas gavetas dos pol\u00edticos e das administra\u00e7\u00f5es, sent\u00edamos uma real frustra\u00e7\u00e3o. Dissemos que foi por raz\u00f5es pol\u00edticas, por falta de vontade pol\u00edtica, que os melhores estudos n\u00e3o conduziram a decis\u00f5es favor\u00e1veis aos pobres. Isto era verdade, exceto que talvez n\u00e3o fosse apenas por culpa dos pol\u00edticos, mas tamb\u00e9m nossa, dado que trabalho n\u00e3o era suscet\u00edvel de despert\u00e1-los para a luta.<\/p>\n<p>Em nenhum momento &#8211; creio poder diz\u00ea-lo &#8211; as universidades pensaram que a inefic\u00e1cia pol\u00edtica de suas pesquisas poderia ser atribu\u00edda ao fato de que o conhecimento assim constru\u00eddo era instrutivo, mas n\u00e3o necessariamente convincente, e que a parte adicional convincente n\u00e3o poderia ser fornecida pelo pr\u00f3prio pesquisador acad\u00eamico, mas apenas pelos pobres e pelos homens de a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>II &#8211; Dificuldades de comunica\u00e7\u00e3o entre os diferentes tipos de conhecimento\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 verdade que muitos acad\u00eamicos inclu\u00edram estas duas fontes de conhecimento em seu trabalho: o dos pobres e o dos homens de a\u00e7\u00e3o. No entanto &#8211; e n\u00e3o \u00e9 este o ponto principal? &#8211; eles n\u00e3o os reconheceram como aut\u00f4nomos e a serem perseguidos por si mesmos, pelos pr\u00f3prios autores. Os pesquisadores fizeram deles prematuramente uma fonte de informa\u00e7\u00e3o para suas pesquisas, em vez de v\u00ea-los como um aut\u00eantico processo de pesquisa em si, um sujeito de apoio e n\u00e3o um objeto de explora\u00e7\u00e3o. De certa forma, eles os subordinaram \u00e0 sua pr\u00f3pria abordagem como observadores externos da vida dos pobres, e externos ao trabalho feito com eles. Eles queriam, de boa-f\u00e9, explorar o conhecimento dos pobres e o conhecimento dos que est\u00e3o em a\u00e7\u00e3o para fins de pesquisa acad\u00eamica. Assim, sem se darem conta, eles se desviaram de seus pr\u00f3prios conhecimentos objetivos que n\u00e3o lhes pertenciam. Talvez mais seriamente, sem querer ou mesmo saber, esses pesquisadores t\u00eam frequentemente perturbado e at\u00e9 mesmo paralisado o pensamento de seus interlocutores. Isto se deu principalmente porque n\u00e3o reconheceram um pensamento aut\u00f4nomo, um conhecimento aut\u00f4nomo com seu pr\u00f3prio caminho e objetivos.<\/p>\n<p>N\u00e3o ter entendido isso \u00e0s vezes causou problemas de comunica\u00e7\u00e3o entre as popula\u00e7\u00f5es do Quarto Mundo e os pesquisadores, entre os pesquisadores e os homens de a\u00e7\u00e3o. No que diz respeito \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o com grupos de popula\u00e7\u00e3o pobres, estou convencido de que mesmo a observa\u00e7\u00e3o participante de antrop\u00f3logos ou etn\u00f3logos envolve este perigo de explora\u00e7\u00e3o, de desvio, de paralisia do pensamento dos pobres. Por ser uma observa\u00e7\u00e3o cujo objetivo \u00e9 externo \u00e0 situa\u00e7\u00e3o vivida pelos pobres, uma situa\u00e7\u00e3o que eles mesmos n\u00e3o tinham escolhido e nunca teriam definido \u00e0 maneira do pesquisador. Esta observa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9, portanto, realmente participativa, pois a reflex\u00e3o do pesquisador e a da popula\u00e7\u00e3o sob observa\u00e7\u00e3o n\u00e3o perseguem os mesmos objetivos.<\/p>\n<p>Isto n\u00e3o \u00e9 um problema de m\u00e9todo, mas uma quest\u00e3o de condi\u00e7\u00e3o de vida; n\u00e3o pode ser resolvido com a ado\u00e7\u00e3o de outros m\u00e9todos, mas apenas mudando de condi\u00e7\u00e3o. Tal como est\u00e1, esta observa\u00e7\u00e3o, que provavelmente n\u00e3o perturbaria o pensamento de um grupo com um bom dom\u00ednio de pensamento e cultura, \u00e9 suscept\u00edvel de perturbar o pensamento de grupos pobres que o dominam menos.<\/p>\n<p>\u00c9 desnecess\u00e1rio dizer que um problema an\u00e1logo surge com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o entre pesquisadores e os homens de a\u00e7\u00e3o? As dificuldades n\u00e3o t\u00eam sido , talvez, devidamente analisadas tampouco. Tem sido dito que as equipes de a\u00e7\u00e3o t\u00eam dificuldade em colaborar com a pesquisa porque n\u00e3o encontram interesse nela, porque desconfiam do olhar escrutinador do pesquisador ou de sua incapacidade de compreender a realidade humana e seus caprichos na vida cotidiana. Foi at\u00e9 mesmo dito que a colabora\u00e7\u00e3o foi mal estabelecida porque faltava \u00e0s pessoas de a\u00e7\u00e3o pensamento l\u00f3gico, que agiam em nome de suas intui\u00e7\u00f5es e impress\u00f5es, e n\u00e3o em nome de uma reflex\u00e3o racional.<\/p>\n<p>Pode haver alguma verdade nestas explica\u00e7\u00f5es, mas me parece que elas n\u00e3o chegam ao \u00e2mago da quest\u00e3o. O problema fundamental \u00e9 que o homem de a\u00e7\u00e3o, para ter uma contribui\u00e7\u00e3o v\u00e1lida a oferecer \u00e0 pesquisa acad\u00eamica, deve ser considerado antes de tudo, n\u00e3o como um mero informante, mas como um pensador que tem, acima de tudo, que realizar, at\u00e9 o fim, sua pr\u00f3pria pesquisa sobre os objetivos que se fixou a si mesmo.<\/p>\n<p>Aqui novamente, temo que mesmo os pesquisadores engajados em analisar uma a\u00e7\u00e3o e avaliar seus resultados corram o risco de ir pelo caminho errado. Com demasiada frequ\u00eancia, eles chegam depois que o dado foi lan\u00e7ado, para depois compreenderem uma situa\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00e3o que lhes \u00e9 totalmente estranha. Esta situa\u00e7\u00e3o \u00e9 contr\u00e1ria a qualquer experi\u00eancia que eles mesmos possam ter vivido, est\u00e1 repleta de inseguran\u00e7a que eles t\u00eam muita dificuldade de imaginar e sobre a qual eles podem ter poucas intui\u00e7\u00f5es. Eles s\u00f3 podem tentar compreender tal situa\u00e7\u00e3o e seus efeitos na medida em que eles mesmos tenham compartilhado e experimentado a inseguran\u00e7a, na medida em que puderam participar do desenvolvimento do pensamento da equipe de a\u00e7\u00e3o, adotando os pr\u00f3prios objetivos desse pensamento.<\/p>\n<p>Dito isto, meu objetivo n\u00e3o era apontar a fragilidade do conte\u00fado dos estudos e pesquisas universit\u00e1rias resultantes destas dificuldades de comunica\u00e7\u00e3o. Meu objetivo era ressaltar que todos estes estudos e pesquisas, por mais excelentes que sejam, n\u00e3o poderiam proporcionar um conhecimento global. O pesquisador sozinho \u00e9 incapaz de fornecer este conhecimento global que \u00e9 necess\u00e1rio para combater efetivamente a extrema pobreza. Gostaria de voltar por um momento \u00e0s outras duas partes do conhecimento que deveriam ser complementares \u00e0s da universidade, mas que n\u00e3o podem ser constitu\u00eddas como tal a menos que sejam aut\u00f4nomas e possam chegar a ao final elas mesmas.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>III &#8211; O conhecimento dos mais pobres, um jardim secreto<\/strong><\/p>\n<p>Permitam-me dizer algumas palavras, sobretudo, sobre o conhecimento e o pensamento das fam\u00edlias do Quarto Mundo. Seu conhecimento e seu pensamento n\u00e3o se referem apenas \u00e0 sua pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o de vida, mas tamb\u00e9m ao mundo ao seu redor, sobre o que \u00e9 esse mundo e o que deveria ser para que os mais fracos n\u00e3o sejam mais exclu\u00eddos.<\/p>\n<p>Certamente n\u00e3o h\u00e1 necessidade de lembrar \u00e0s pessoas que pensar e saber s\u00e3o atos, e que todo homem realiza estes atos. N\u00e3o importa o que a vida lhe tenha proporcionado, todo homem pensa, conhece e se esfor\u00e7a para entender, todo homem realiza atos para um objetivo que \u00e9 seu objetivo, e seu pensamento \u00e9 organizado de acordo com esse objetivo. \u00c9 desta forma que cada ato de pensamento \u00e9 provavelmente um ato do ser humano para sua pr\u00f3pria liberta\u00e7\u00e3o e repito &#8211; pois \u00e9 isto que o Movimento est\u00e1 testemunhando em muitas \u00e1reas de mis\u00e9ria no mundo: cada ser humano, cada grupo tamb\u00e9m, tenta concretizar este ato. Por mais fracos que sejam os meios de pensamento l\u00f3gico, os meios de an\u00e1lise que receberam, cada ser humano, cada grupo, torna-se um pesquisador, em busca de sua independ\u00eancia, em busca de uma compreens\u00e3o de si mesmo e de sua situa\u00e7\u00e3o, permitindo-lhes deixar de lado inseguran\u00e7as e medos, controlar seu destino, em vez de sofr\u00ea-lo e ter medo dele.<\/p>\n<p>Aqueles que pensam que as pessoas totalmente empobrecidas s\u00e3o ap\u00e1ticas e, portanto, n\u00e3o pensam, que se acomodam \u00e0 depend\u00eancia ou ao mero esfor\u00e7o de sobreviv\u00eancia do dia a dia, est\u00e3o muito enganados. Eles ignoram as inven\u00e7\u00f5es de autodefesa das quais os mais pobres s\u00e3o capazes para escapar da influ\u00eancia daqueles dos quais dependem, a fim de salvaguardar uma exist\u00eancia pr\u00f3pria, cuidadosamente escondida atr\u00e1s da vida que exibem como uma cortina; atr\u00e1s da vida que exibem a fim de iludir o olho externo. Eles ignoram o esfor\u00e7o desesperado de reflex\u00e3o e explica\u00e7\u00e3o deste homem que continua se perguntando: &#8220;Mas quem sou eu? Quem continua dizendo: &#8220;Por que estou sendo tratado assim, como um covarde, como um c\u00e3o, como um patife? Eu sou um fracote?&#8221; E que, com um doloroso esfor\u00e7o de reflex\u00e3o, nunca deixa de ressurgir por debaixo destas falsas acusa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o tantas identidades falsas que lhe foram dadas, repetindo para si mesmo: &#8220;N\u00e3o, n\u00e3o sou um c\u00e3o, n\u00e3o sou o tolo que me fizeram ser, sei coisas, tamb\u00e9m, coisas que eles nunca entender\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Nesta afirma\u00e7\u00e3o, que sempre ressurge depois de todas as d\u00favidas, este homem mon\u00f3tono, exausto no corpo e na mente, est\u00e1 infinitamente certo. Ele sabe de coisas que outros talvez nunca entendam, ou at\u00e9 mesmo imaginem. Seu conhecimento, por mais mal constru\u00eddo que seja, \u00e9 sobre o que significa ser condenado por toda a vida ao desprezo e \u00e0 exclus\u00e3o. Ela abrange tudo o que significa em termos de eventos, em termos de sofrimento, mas tamb\u00e9m em termos de esperan\u00e7a, de resist\u00eancia diante desses eventos. Trata-se de um conhecimento do mundo ao seu redor, o conhecimento de um mundo cujo comportamento em rela\u00e7\u00e3o a pessoas pobres como ele, s\u00f3 ele conhece. O melhor pesquisador do mundo n\u00e3o pode imaginar estas coisas e, portanto, n\u00e3o pode formular as hip\u00f3teses corretas e fazer as perguntas certas. Dissemos que o pesquisador est\u00e1 diante de um campo de conhecimento que ele n\u00e3o pode controlar. De certa forma, ele se depara com o jardim secreto dos mais pobres. Ningu\u00e9m pode entrar nela, a menos que mude sua situa\u00e7\u00e3o de vida para poder fazer com que as pessoas mais desfavorecidas falem com confian\u00e7a e para entender o que elas dizem. Como est\u00e1, o pesquisador n\u00e3o tem meios para apreender o conte\u00fado deste jardim secreto, mas tamb\u00e9m e sobretudo, n\u00e3o tem o direito de faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que tenha o direito, mesmo em nome da ci\u00eancia, de perturbar outro homem em seu esfor\u00e7o talvez desajeitado, mas implac\u00e1vel, para desenvolver um pensamento libertador. E nenhum pesquisador tem o direito de agarrar a oportunidade dos esfor\u00e7os das pessoas mais pobres para se libertar e reintroduzi-los na servid\u00e3o. Pois repito: perturbar os mais pobres em seu pensamento, usando-os como informantes, em vez de encoraj\u00e1-los a desenvolver seu pr\u00f3prio pensamento em um ato verdadeiramente aut\u00f4nomo, \u00e9 escraviz\u00e1-los. Especialmente porque, atrav\u00e9s de seu pr\u00f3prio pensamento, eles est\u00e3o quase constantemente em busca de sua hist\u00f3ria e identidade e somente eles t\u00eam acesso direto a uma parte essencial das respostas \u00e0s suas perguntas. Estas perguntas sobre sua hist\u00f3ria e identidade, muito mais do que sobre suas necessidades ou mesmo seus direitos, eles se perguntam por que sabem, talvez confusa, mas profundamente, que \u00e9 atrav\u00e9s destas perguntas que eles encontrar\u00e3o o caminho para sua liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o quero dizer que est\u00e1vamos errados ao falar com eles sobre seus direitos ou ao perguntar-lhes sobre suas necessidades. Mas tais abordagens s\u00f3 podem ter um significado libertador para eles na medida em que as trocas se situam nesta perspectiva de compreens\u00e3o de sua identidade hist\u00f3rica, que \u00e9 a \u00fanica que pode ajudar a torn\u00e1-los sujeitos e senhores de seus direitos e necessidades. No entanto, \u00e9 preciso admitir que nem sempre \u00e9 assim. Por exemplo, durante todo o per\u00edodo da chamada &#8220;Guerra contra a Pobreza&#8221; nos Estados Unidos, n\u00e3o vimos uma \u00fanica pesquisa hist\u00f3rica sobre os chamados &#8220;hard-core&#8221;<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> pobres, muito menos um estudo desse tipo. Mesmo na Gr\u00e3-Bretanha, um pa\u00eds que consideramos o mais importante do mundo, n\u00e3o temos visto uma \u00fanica pesquisa sobre os chamados pobres \u201chard-core\u201d.<\/p>\n<p>Mesmo na Gr\u00e3-Bretanha, um pa\u00eds que consideramos exemplar em sua fidelidade \u00e0 pesquisa sobre a pobreza, mesmo durante a grande era da chamada sociedade do bem-estar, faltam a pesquisa hist\u00f3rica e a pesquisa sobre identidade. Os pobres s\u00f3 t\u00eam uma identidade em termos de suas necessidades, em termos do que lhes falta. Se chegamos a este ponto, \u00e9 certamente devido, em parte, a um grande respeito pelos pobres por parte dos pesquisadores, \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o deles em n\u00e3o os separar ou arriscar sua segrega\u00e7\u00e3o. Mas ser\u00e1 isto correto e sensato, na medida em que sua identidade hist\u00f3rica \u00e9 de incans\u00e1vel resist\u00eancia e imensur\u00e1vel dignidade?<\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 isto justo e sensato, dado que sua identidade hist\u00f3rica \u00e9 uma identidade de resist\u00eancia incessante e dignidade imensur\u00e1vel; dado que \u00e9 uma identidade que tamb\u00e9m leva uma mensagem essencial a toda a sociedade?<\/p>\n<p>As fam\u00edlias mais pobres do Movimento nos ensinaram que falar com elas apenas sobre suas necessidades, reduzindo-as aos &#8220;indicadores sociais&#8221; que as caracterizam segundo a pesquisa cient\u00edfica, sem ajud\u00e1-las a entender sua hist\u00f3ria e personalidade comuns, ainda \u00e9 uma forma de prend\u00ea-las. Na verdade, s\u00e3o estas fam\u00edlias que v\u00eam ao Movimento dizendo n\u00e3o: &#8220;Explique-nos&#8221;, mas &#8220;Ajude-nos a pensar&#8221; e alguns acrescentam, e h\u00e1 cada vez mais deles dizendo: &#8220;Precisamos pensar, porque eles nunca ser\u00e3o capazes de entender&#8221;.<\/p>\n<p><strong>IV- Apoiar e promover o pensamento do Quarto Mundo\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>Cabe a n\u00f3s, a voc\u00eas, pesquisadores universit\u00e1rios, aprofundar e explicar esta li\u00e7\u00e3o que o Quarto Mundo nos d\u00e1 sobre seu direito de que se reconhe\u00e7a este campo de pensamento e conhecimento aut\u00f4nomo. Cabe a n\u00f3s, a voc\u00ea, encontrar a maneira de apoi\u00e1-los em seus esfor\u00e7os de reflex\u00e3o. Pois, se bem o Quarto Mundo indica claramente que quer ir at\u00e9 o fim de sua pr\u00f3pria reflex\u00e3o, nunca nos disse que n\u00e3o precisa de ajuda neste processo. Pelo contr\u00e1rio: &#8220;Voc\u00eas que aprenderam a refletir, ensinem-nos&#8221; \u00e9 um pedido que continua voltando, onde quer que nossas equipes estejam baseadas. Seja na Guatemala ou na Su\u00ed\u00e7a, em Nova Iorque, Bangkok ou nas favelas de Londres, as pessoas mais pobres pedem a presen\u00e7a n\u00e3o de professores (veem muitos deles), mas de homens e mulheres inteligentes e competentes, capazes de fornecer os meios de pensar sem se infiltrarem no pensamento dos outros.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 seguro que os meios e m\u00e9todos, a pedagogia deste tipo de abordagem sejam suficientemente conhecidos. N\u00e3o por falta de precursores neste campo, mas talvez porque os projetos realizados em nome de uma ou outra pedagogia da &#8220;conscientiza\u00e7\u00e3o&#8221; que pudemos estudar, na Am\u00e9rica Latina, na \u00cdndia e mesmo na Europa, parecem quase sem exce\u00e7\u00e3o deixar de fora os mais pobres. Seja em aldeias ind\u00edgenas na Col\u00f4mbia, aldeias intoc\u00e1veis na \u00cdndia, uma &#8220;favela&#8221; em Calcut\u00e1 ou uma regi\u00e3o pobre em Portugal, os habitantes mais pobres s\u00e3o encontrados nas pr\u00f3prias margens destes projetos. Talvez estes projetos tamb\u00e9m nos levantem quest\u00f5es por causa da linguagem e conceitos curiosamente ocidentais que eles parecem transmitir nas regi\u00f5es mais remotas do Extremo Oriente, mesmo em aldeias empoleiradas em altos planaltos, longe de qualquer civiliza\u00e7\u00e3o ocidental, na Bol\u00edvia. Foram os pr\u00f3prios habitantes que inventaram o vocabul\u00e1rio familiar aos nossos ouvidos ocidentais: &#8220;rela\u00e7\u00f5es de poder&#8221;, &#8220;explora\u00e7\u00e3o do homem pelo homem&#8221;, &#8220;luta de classes&#8221;&#8230; ? N\u00e3o teriam eles inventado nada mais do que n\u00f3s, n\u00e3o seriam eles capazes de usar palavras nascidas de sua pr\u00f3pria civiliza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Pensamos que nosso comit\u00ea poderia ter uma palavra a dizer sobre este assunto, que seria capaz de destacar as condi\u00e7\u00f5es para um apoio aut\u00eantico ao pensamento dos pobres, capaz de reconhecer projetos que realmente promovam o desenvolvimento do conhecimento independente espec\u00edfico do Quarto Mundo. E tamb\u00e9m acreditamos que nosso comit\u00ea poderia e deveria revelar a import\u00e2ncia do pensamento dos pobres, n\u00e3o apenas para sua pr\u00f3pria participa\u00e7\u00e3o na luta contra a exclus\u00e3o, mas para toda uma sociedade que deve encontrar a vontade e os meios para combat\u00ea-la. Era disto que est\u00e1vamos falando quando fizemos a pergunta no in\u00edcio: de que conhecimentos necessita nossa luta comum?<\/p>\n<p>Era nisto que eu estava pensando quando disse que, sem o conhecimento que os mais pobres possuem, a pesquisa universit\u00e1ria corre o risco de constituir um conhecimento demasiado parcial e carente precisamente daquilo que poderia torn\u00e1-lo revigorante, provocador de a\u00e7\u00e3o e de luta. Sem querer me aventurar em especula\u00e7\u00f5es filos\u00f3ficas ou considera\u00e7\u00f5es de psicologia social, deixe-me simplesmente declarar as duas raz\u00f5es pelas quais, na experi\u00eancia do Movimento, a palavra dos mais pobres provoca a\u00e7\u00e3o, sendo todos os outros conhecimentos meramente de apoio a este respeito.<\/p>\n<p>Logo de in\u00edcio, em um mundo onde os apelos \u00e0 luta se multiplicam por todos os lados, ao contr\u00e1rio do que se poderia pensar, n\u00e3o s\u00e3o as causas menores que levam nossos contempor\u00e2neos a se comprometerem de forma s\u00e9ria e sustent\u00e1vel. Nossos concidad\u00e3os querem se comprometer com o essencial, ou seja, com o sofrimento e a esperan\u00e7a dos totalmente exclu\u00eddos. \u00c9 por ter denunciado as consequ\u00eancias extremas da pobreza sem tentar revesti-las de a\u00e7\u00facar que o Movimento tem conseguido ganhar for\u00e7a e crescer.<\/p>\n<p>Mas somente os mais pobres conhecem tais consequ\u00eancias extremas. Somente eles conhecem toda a injusti\u00e7a, toda a nega\u00e7\u00e3o dos direitos humanos, todo o sofrimento da extrema pobreza. Somente eles sabem o que precisa mudar no cora\u00e7\u00e3o e na mente, nas estruturas e no funcionamento de nossas democracias. As conclus\u00f5es dos estudos acad\u00eamicos que conseguimos reunir ao longo dos \u00faltimos 25 anos s\u00e3o apenas um fraco reflexo disso, uma mensagem distorcida, se ouso dizer.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, \u00e9 somente quando vemos a totalidade do que as fam\u00edlias do Quarto Mundo nos comunicaram que podemos perceber que sua mensagem n\u00e3o \u00e9 marginal, mas, pelo contr\u00e1rio, essencial, central e, ousamos diz\u00ea-lo, prof\u00e9tica. Porque diz tudo sobre o que nossas sociedades n\u00e3o s\u00e3o e tudo sobre o que elas deveriam ser. Alguns de voc\u00eas se lembrar\u00e3o de nossos esfor\u00e7os para que esta ideia fosse aceita dentro da Associa\u00e7\u00e3o Sociol\u00f3gica Internacional nos anos 60. Renovamos nossos esfor\u00e7os no &#8220;Programa Europeu de Pesquisa e A\u00e7\u00e3o Piloto de Combate \u00e0 Pobreza&#8221; nos anos 70. O Movimento prop\u00f4s um projeto para estudar formas e meios de permitir que as pessoas mais pobres da Comunidade Europeia falem por si mesmas, em vez de ter que esperar que os pesquisadores falem por elas. Os representantes do governo na \u00e9poca ainda n\u00e3o consideravam este projeto como de interesse imediato.<\/p>\n<p>Em nossa experi\u00eancia, por\u00e9m, \u00e9 o fato de termos permitido que o Quarto Mundo falasse e dissesse suas pr\u00f3prias verdades que nos rendeu grande apoio em todo o mundo. Somos apenas uma simples organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental. Se esta organiza\u00e7\u00e3o foi capaz de durar e se expandir, n\u00e3o foi porque a mensagem dos mais pobres pode convencer porque \u00e9 irrefut\u00e1vel em virtude de sua pr\u00f3pria natureza?<\/p>\n<p>Mas novamente, o que parece importar, sempre nesta experi\u00eancia de um Movimento confrontado dia a dia com as realidades de uma luta, \u00e9 que nossos concidad\u00e3os ou\u00e7am a pr\u00f3pria voz dos mais pobres, sua palavra ao inv\u00e9s de sua tradu\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de um estudo acad\u00eamico. N\u00e3o dever\u00edamos ter a simplicidade de admitir isso? \u00c9 o conhecimento de que, neste Movimento, todos podem ouvir esta palavra e que todo o Movimento tem a tarefa de transmiti-la que lhe rendeu o apoio pol\u00edtico que tem sido capaz de atrair.<\/p>\n<p>O pensamento dos mais pobres, essencial para compreender a exclus\u00e3o, as palavras dos mais pobres, essencial para encorajar os concidad\u00e3os a lutar: n\u00e3o \u00e9 para sua reabilita\u00e7\u00e3o que nosso comit\u00ea deve dedicar pelo menos parte de suas energias? A quest\u00e3o de seu lugar surgir\u00e1 hoje quando discutirmos o semin\u00e1rio &#8220;Quarto Mundo na \u00c1frica&#8221;. Ela surgir\u00e1 novamente amanh\u00e3 quando discutirmos o significado das pol\u00edticas europeias de combate \u00e0 pobreza nos Estados-Membros da Comunidade Europeia. E a mesma quest\u00e3o surgir\u00e1 novamente, em suas dimens\u00f5es mais profundas, quando na sexta-feira, com nossa amiga, a professora Jona Rosenfeld, falaremos sobre as alian\u00e7as, as &#8220;parcerias&#8221; que uma luta contra a exclus\u00e3o implica.<\/p>\n<p>Portanto, a quest\u00e3o se relaciona ao conjunto do nosso trabalho durante os pr\u00f3ximos tr\u00eas dias. Mas \u00e9 ainda mais porque nos parece ser parte integrante da raz\u00e3o de ser do Comit\u00ea, bem como de suas tarefas de longo prazo, que pensamos em elev\u00e1-lo nesta primeira hora de nossa reuni\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>V &#8211; O Conhecimento das Equipes de A\u00e7\u00e3o\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 alguma necessidade de ampliar nossas observa\u00e7\u00f5es iniciais sobre a necess\u00e1ria autonomia de conhecimento de homens e mulheres em a\u00e7\u00e3o? O que acabo de dizer sobre os direitos do Quarto Mundo a este respeito, obviamente, tamb\u00e9m se aplica a eles. Eles t\u00eam que desenvolver uma maneira necessariamente \u00fanica de pensar sobre a a\u00e7\u00e3o, sobre as incertezas e impasses, as rea\u00e7\u00f5es e mudan\u00e7as, as novas ideias e a\u00e7\u00f5es que sua presen\u00e7a e suas interven\u00e7\u00f5es provocam. Um pensamento que tamb\u00e9m precisa ser apoiado por pessoas de fora, competentes. Mas o faz enquanto permanece aut\u00f4nomo. Pensamento que \u00e9 livre para perseguir seus pr\u00f3prios objetivos. \u00c9 \u00f3bvio que os respons\u00e1veis pela a\u00e7\u00e3o precisam deste apoio para cumprir seus compromissos. Assim como parece \u00f3bvio que o Quarto Mundo precisa ter, ao seu lado, equipes livres e capazes de reflex\u00e3o aut\u00f4noma.<\/p>\n<p>Certamente, como fazemos com as pessoas mais pobres, podemos fazer das pessoas em a\u00e7\u00e3o e de suas atividades um objeto de pesquisa. Como j\u00e1 dissemos, podemos at\u00e9 mesmo tentar avaliar os resultados de seus esfor\u00e7os para eles. O que me parece preocupante, entretanto, \u00e9 que os estudos acad\u00eamicos, que s\u00e3o tentativas de captar a a\u00e7\u00e3o do exterior, n\u00e3o podem de forma alguma substituir o conhecimento que a a\u00e7\u00e3o deve ter de si mesma e para si mesma. Este continua sendo um campo de dif\u00edcil acesso para o pesquisador, pelas mesmas raz\u00f5es que o acesso \u00e0 realidade vivida dos pobres continua dif\u00edcil.<\/p>\n<p>Sem d\u00favida, voc\u00eas concordar\u00e3o que o pensamento da a\u00e7\u00e3o sobre si mesma tamb\u00e9m \u00e9 um componente do conhecimento global e mobilizador do qual necessitamos para nos tornar capazes de agir. A sociedade circundante precisa deste terceiro componente. Precisa de exemplos de cidad\u00e3os que se comprometam, e tem necessidade de entend\u00ea-los, tanto quanto tem necessidade de conhecimento acad\u00eamico. Depois da voz dos mais pobres, n\u00e3o \u00e9, de fato, a a\u00e7\u00e3o que pode ser comunicada e que se comunica, que melhor encoraja a a\u00e7\u00e3o? N\u00e3o \u00e9 isto que pode inspirar aos outros o desejo e a coragem de agir por sua vez?<\/p>\n<p>Aqui novamente, parece-me que os pesquisadores t\u00eam um servi\u00e7o incalcul\u00e1vel a prestar, comprometendo-se a reabilitar e apoiar o conhecimento que n\u00e3o \u00e9 seu pr\u00f3prio.<\/p>\n<p><strong>Para concluir: Um comit\u00ea mobilizador <\/strong><\/p>\n<p>Reabilitar, apoiar, ajudar a desenvolver e consolidar novas abordagens do conhecimento, e finalmente conseguir a colabora\u00e7\u00e3o entre pesquisadores, popula\u00e7\u00f5es empobrecidas e equipes de a\u00e7\u00e3o &#8211; este nos parece ser um papel fundamental que o Quarto Mundo significa para os pesquisadores universit\u00e1rios. Se o Comit\u00ea concordasse, aprofundar\u00edamos este papel nos anos vindouros.<\/p>\n<p>Este papel n\u00e3o exclui outros, \u00e9 claro, mas me parece mais necess\u00e1rio e mais inovador do que outros, neste momento da hist\u00f3ria. Isto porque queremos que nosso Comit\u00ea se torne, apesar de seus modestos meios, uma for\u00e7a motriz, um mobilizador de pessoas.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Literalmente, o termo &#8220;hard-core&#8221; (n\u00facleo duro) se refere \u00e0s popula\u00e7\u00f5es mais dif\u00edceis de alcan\u00e7ar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Observa\u00e7\u00f5es introdut\u00f3rias Ao encontr\u00e1-los esta manh\u00e3 dentro das paredes da UNESCO, e ao agradecer-lhes por terem respondido ao nosso chamado (&#8230;) <a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/o-pensamento-dos-mais-pobres-em-um-conhecimento-que-leva-a-luta\/\">Read more <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":3126,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"ep_exclude_from_search":false,"footnotes":""},"categories":[159,187],"tags":[],"class_list":["post-4380","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-other-languages","category-portugues-brasileiro"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.0 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>O pensamento dos mais pobres em um conhecimento que leva \u00e0 luta - Joseph Wresinski EN<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/o-pensamento-dos-mais-pobres-em-um-conhecimento-que-leva-a-luta\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"en_US\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"O pensamento dos mais pobres em um conhecimento que leva \u00e0 luta - Joseph Wresinski EN\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"Observa\u00e7\u00f5es introdut\u00f3rias Ao encontr\u00e1-los esta manh\u00e3 dentro das paredes da UNESCO, e ao agradecer-lhes por terem respondido ao nosso chamado (...) 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