{"id":4387,"date":"2023-01-14T13:59:49","date_gmt":"2023-01-14T12:59:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/?p=4387"},"modified":"2023-01-14T13:59:49","modified_gmt":"2023-01-14T12:59:49","slug":"uma-crianca-pequena-no-circulo-infernal-da-violencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/uma-crianca-pequena-no-circulo-infernal-da-violencia\/","title":{"rendered":"Uma crian\u00e7a pequena no c\u00edrculo infernal da viol\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>A lembran\u00e7a mais long\u00ednqua da minha inf\u00e2ncia \u00e9 de uma longa ala hospitalar, e de minha m\u00e3e gritando ao lado da freira que nos vigiava. Como uma crian\u00e7a raqu\u00edtica, eu havia sido hospitalizada para endireitar minhas pernas.<\/p>\n<p>Naquele dia eu disse \u00e0 minha m\u00e3e que as irm\u00e3s me haviam privado do pacote que ela me trouxera no domingo. Minha m\u00e3e, como quem sabe com que sacrif\u00edcio tinha conseguido juntar quatro doces para mim, ficou furiosa. Ela me tirou imediatamente das m\u00e3os da freira e me levou para casa. A partir de ent\u00e3o fiquei com as pernas tortas, e durante toda a minha juventude tive que suportar o rid\u00edculo e o esc\u00e1rnio que vieram com esta deformidade, e o desconforto de coxear um pouco, especialmente durante a minha adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p>Assim, o primeiro contato com os outros, cuja mem\u00f3ria permanece em mim, \u00e9 a da injusti\u00e7a e de uma les\u00e3o que marcaria meu corpo para o resto de minha vida. Sem d\u00favida, \u00e9 por isso que se tornaram intoler\u00e1veis os narizes escorrendo, as pernas tortas, os corpos jovens, j\u00e1 arranhados, que me rodeiam hoje nos barracos, nas periferias, nas favelas .<\/p>\n<p>Que minha m\u00e3e gritasse detr\u00e1s da freira n\u00e3o me chocou, eu estava acostumado aos gritos. Em casa, meu pai sempre gritava. Ele costumava bater no meu irm\u00e3o para o desespero de minha m\u00e3e, porque ele sempre lhe dava uma pancada na cabe\u00e7a. Ele tamb\u00e9m insultou minha m\u00e3e, e n\u00f3s viv\u00edamos aterrorizados.<\/p>\n<p>S\u00f3 mais tarde, quando eu era homem, partilhando a vida de outros homens como ele, de outras fam\u00edlias como a nossa, entendi que meu pai era um homem humilhado. Ele sofreu por ter falhado na vida; carregava a vergonha de n\u00e3o poder nos dar seguran\u00e7a ou felicidade.<\/p>\n<p>Aqui est\u00e1 o mal da mis\u00e9ria. Um homem n\u00e3o pode viver assim, humilhado, sem reagir. E o pobre homem, hoje como ontem, reage da mesma maneira violenta. Isto foi, para uma crian\u00e7a como Eu,\u00a0 entrar no c\u00edrculo infernal da viol\u00eancia. A viol\u00eancia era a forma de responder aos obst\u00e1culos, \u00e0s dificuldades de todos os tipos e de todos os dias. E inconscientemente tornou-se para mim, como para meu pai, a maneira de me lavar de todas as humilha\u00e7\u00f5es que nos impunha nossa extrema pobreza.<\/p>\n<p>O que sempre me surpreende mais, apesar dos anos que se passaram, \u00e9 que meus pais s\u00f3 falavam de dinheiro. Eles que n\u00e3o o tinham, brigavam quase sempre por dinheiro. E quando entrava um pouco de dinheiro na casa, discutiam sobre como gast\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Mais tarde, quando ficou sozinha, a mam\u00e3e sempre nos falava de dinheiro. E quando ela falava das pessoas conhecidas, era sempre para dizer que eram ricas. Dos padres da par\u00f3quia, ela diria &#8220;eles s\u00e3o ricos&#8221;. Mesmo a comerciante do bairro era rica aos seus olhos. E n\u00e3o\u00a0 ser era por invejosa. Mas quando falta o essencial, a \u00fanica coisa que conta \u00e9 o que pode satisfazer a fome e satisfazer a necessidade. \u00c9 sempre a mesma coisa; e nas \u00e1reas cinzentas que cercam nossas cidades, interesses, disputas, relacionamentos, sempre convergem em quest\u00f5es de dinheiro.<\/p>\n<p>Eu estava envolvido nesta luta pela subsist\u00eancia desde a mais tenra idade. Aos quatro anos de idade, fui eu quem levava a cabra ao pasto. A cabra que alimentava \u00e0 minha irm\u00e3 rec\u00e9m-nascida e a n\u00f3s crian\u00e7as. Ao lev\u00e1-la, eu passava em frente ao grande port\u00e3o do convento do Bom Pastor, onde \u00e0s vezes uma freira falava comigo. Um dia, ela me perguntou se eu queria ajudar na missa todas as manh\u00e3s. Naquele dia fui contratado pela primeira vez. Na verdade, foi um verdadeiro contrato. Ao ajudar na missa, eu teria direito a uma boa tigela de caf\u00e9 e leite todas as manh\u00e3s, com p\u00e3o e geleia, e manteiga aos domingos. Foram os dois francos que me fizeram decidir.<\/p>\n<p>Foi assim que eu comecei a assumir a responsabilidade na fam\u00edlia. Toda manh\u00e3, por quase onze anos, minha m\u00e3e me chamava para a missa das sete horas. Demorava quase dez minutos para chegar \u00e0 capela detr\u00e1s das altas paredes do convento. No inverno eu tinha frio, a escurid\u00e3o me assustava. Mas se chovia ou o vento soprava, eu me encolhia, sonolento, \u00e0s vezes gritando de raiva, eu seguia a rue Saint Jacques, descia a rue Brault deserta e sombria at\u00e9 os prados, e ia ajudar na missa para que a mam\u00e3e recebesse os dois francos. Creio que nunca perdi o este encontro matinal, e ainda me parece como se toda a minha inf\u00e2ncia tivesse sido constru\u00edda em torno dele.<\/p>\n<p>Quanta fome deve ter passado a minha m\u00e3e por n\u00f3s para deixar que o seu pequeno sa\u00edsse assim todas as manh\u00e3s \u00e0 rua! E como devo ter compreendido bem para o aceitar sem que o meu cora\u00e7\u00e3o se enchesse de fel e sem que Deus se enfurecesse!<\/p>\n<p>Mais tarde, tive de percorrer o mesmo caminho para tr\u00e1s e para a frente ao meio-dia. Como \u00e9ramos os mais pobres do bairro, n\u00e3o era surpreendente que, quando saia da escola, voltasse a correr para o convento, e desta vez para me trazer, em lancheiras ou de conserva vazia, uma refei\u00e7\u00e3o preparada a partir daquilo que as freiras comiam: ervilhas, lentilhas, batatas, por vezes um peda\u00e7o de carne, bem como um enorme p\u00e3o, que era a parte principal da nossa refei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desta forma, todos os dias da minha juventude foram conduzidos pela vida das Irm\u00e3s do Bom Pastor, pela sua ora\u00e7\u00e3o e pela sua comida, para que a fome n\u00e3o reinasse na nossa casa.<\/p>\n<p>Por vezes, lembro-me disso hoje ao ver as crian\u00e7as a subir nos lix\u00f5es ou a seguir o carrinho de seus pais, caminhando para esvaziar um s\u00f3t\u00e3o ou um por\u00e3o.\u00a0 Cavam atrav\u00e9s do lixo, recuperam os metais; eu ajudei na missa, esperei pela nossa refei\u00e7\u00e3o na porta do convento. Hoje, como ent\u00e3o, a pobre crian\u00e7a n\u00e3o tem inf\u00e2ncia, t\u00e3o logo pode ficar de p\u00e9 sobre as suas pernas, as responsabilidades recaem sobre ela.<\/p>\n<p>E, no entanto, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que, tal como com as crian\u00e7as pobres de hoje, tinha tamb\u00e9m espa\u00e7o para brincar e para rir&#8230; N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que criava os meus esconderijos, os meus circuitos inesperados naquele velho bairro de Angers onde, com os meus companheiros, imagin\u00e1vamos labirintos. Mas tinha este ir e vir do convento, ir e vir todos os dias, a caminho da vergonha da minha inf\u00e2ncia, e isto apagou todo o consolo que nele possa ter existido.<\/p>\n<p>Caminhos de vergonha: este n\u00e3o foi o \u00fanico; e tudo em rela\u00e7\u00e3o com esta necessidade premente de comida. Ainda me vejo, rapazinho, a trazendo da loja a garrafa de \u00f3leo que tinha feito encher por cinquenta c\u00eantimos. Se n\u00e3o estivesse cheia at\u00e9 \u00e0 borda, a mam\u00e3e obrigava-me a voltar para que agregassem quatro gotas. Luta perp\u00e9tua e humilhante dos pobres para matar a sua fome.<\/p>\n<p>Mais tarde, tive que devolver ao a\u00e7ougue peda\u00e7os de carne de cavalo que demasiado duros. De facto, aos sete anos de idade, tinha encontrado outro emprego, a fazer recados para Marie-Louise, a talhante, que me dava dois francos de carne todos os dias. Mam\u00e3e exigia que a carne fosse fresca e tenra. E se necess\u00e1rio, ela n\u00e3o tinha problemas em enviar-me a reclamar, prova em m\u00e3o, uma melhor qualidade para a mesa de fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Como retalia\u00e7\u00e3o \u00e0 vergonha, \u00e9ramos fortes e eu, inconscientemente, cobrava-me com os punhos o peso da esmagadora escravid\u00e3o de ter que alimentar \u00e0 fam\u00edlia. Lembro-me de ter esmurrado outro pequeno advers\u00e1rio quando tinha sete anos de idade.<\/p>\n<p>Assim, quando a minha m\u00e3e foi buscar a freira do jardim de inf\u00e2ncia para ver se eu podia entrar na turma das crian\u00e7as mais velhas, a Irm\u00e3 disse: &#8220;Claro, manda-o para l\u00e1, que aqui ele pode com todos&#8221;. Assim, desde a minha primeira inf\u00e2ncia, a falta de dinheiro, a vergonha e a viol\u00eancia misturaram-se.<\/p>\n<p>N\u00e3o me lembro de nunca ter encontrado a minha m\u00e3e alegre quando eu regressava da escola. Abandonada, n\u00e3o se consolava por ter de carregar o fardo de quatro crian\u00e7as sozinha. Depois seriam as not\u00edcias de papai, e acima de tudo do dinheiro que ele deveria enviar-nos e que nunca chegava. E o g\u00e1s que tinha de ser pago, o carv\u00e3o para o Inverno, o fog\u00e3o que tinha de ser substitu\u00eddo&#8230;.<\/p>\n<p>Estava quase sempre frio em casa. A velha forja onde viv\u00edamos estava sempre cheia de correntes de ar. O ar filtrado por baixo das portas, atrav\u00e9s das divis\u00f3rias. Uma delas era feita de caixas cobertas com papel de embrulho, e quando o papel foi rasgado, o ar passou por ela. Tamb\u00e9m estava frio porque todos os apartamentos acima do nosso se comunicavam com a mesma chamin\u00e9, que estava quase sempre bloqueada, e quando acend\u00edamos o fogo, Teresa, a filha do alfaiate, descia a xingar a minha m\u00e3e porque a fuma\u00e7a se\u00a0 filtrava na casa deles. Para evitar qualquer grito, a minha m\u00e3e retirava ent\u00e3o os peda\u00e7os de carv\u00e3o que t\u00ednhamos retirado dos escombros da f\u00e1brica de g\u00e1s. Estas brasas, que tinham sido cuidadosamente recolhidas, mais pareciam aumentar o frio com a sua pobreza, do que combat\u00ea-lo.<\/p>\n<p>Como posso explicar a passividade da minha m\u00e3e, que hoje vejo novamente em tantas m\u00e3es pobres que encontro nos lugares de mis\u00e9ria? O seu medo de se meter em problemas com os vizinhos, muito ou mais do que do cansa\u00e7o, vinha do medo. A minha m\u00e3e sabia que era estrangeira, e tinha sempre medo de que a pol\u00edcia a viesse procur\u00e1-la para a mand\u00e1-la a Espanha, sabe Deus por que raz\u00e3o. Tal como as m\u00e3es dos barracos: t\u00eam sempre medo que a pol\u00edcia venha e lhes fa\u00e7a mal.<\/p>\n<p>Quanto a Teresa, a filha do alfaiate, que vinha insult\u00e1-la, eu ainda era um rapazinho ainda quando, aos gritos, lhe apontei com um pau. N\u00e3o sei o que lhe disse na minha f\u00faria infantil, mas a partir da\u00ed o nosso pobre fogo poderia continuar a arder bem ou mal no velho fog\u00e3o cuja lareira estava arrebentando, e cujos buracos continu\u00e1vamos a tapar com barro recolhido dos campos vizinhos.<\/p>\n<p>A minha m\u00e3e queixava-se frequentemente que estava preocupada comigo, de meu retraso na escola, que molhava a cama. E isso foi um fardo extra nas minhas costas, porque toda a vizinhan\u00e7a sabia disso. Os pobres n\u00e3o escondem a sua mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>J\u00e1 n\u00e3o t\u00eam for\u00e7as para esconder as dificuldades de uma exist\u00eancia esmagadora. E, no entanto, gra\u00e7as \u00e0 minha m\u00e3e, pude , apresentar-me para obter o meu certificado da escola prim\u00e1ria. \u00c9ramos poucos na escola paga a receber educa\u00e7\u00e3o gratuita, e nos sent\u00e1vamos no fundo da aula. Por isso, quando chegaram os exames de fim de curso, o diretor n\u00e3o quis arriscar-se a que me apresentasse. Ele tampouco tinha apresentado o meu irm\u00e3o mais velho, e a minha m\u00e3e n\u00e3o o tinha tomado mal.<\/p>\n<p>Mas quando chegou a minha hora, ela n\u00e3o se resignou. Ela sabia que eu n\u00e3o era tolo, que tinha demasiadas responsabilidades, demasiado sofrimento, e que sentia uma injusti\u00e7a demasiado profunda. Para n\u00f3s que recebemos caridade, mas nunca o que nos era devido, a injusti\u00e7a era o nosso p\u00e3o de cada dia, e a minha m\u00e3e n\u00e3o queria acrescentar outra. Foi ela que quis que eu me inscrevesse e que me apresentou para os meus exames. At\u00e9 hoje, ainda n\u00e3o sei que reservas de indigna\u00e7\u00e3o e coragem foi necess\u00e1ria \u00e0 minha m\u00e3e para defender os seus filhos desta forma.<\/p>\n<p>E me defendeu teimosamente quando as senhoras da par\u00f3quia tiveram a ideia de me obrigar a aderir a &#8220;Les Orphelins d&#8217;Auteuil&#8221;. Um projeto razo\u00e1vel, aparentemente, mas humilhante para as crian\u00e7as nascidas na pobreza, bem como para as suas m\u00e3es, ao pretender educ\u00e1-las separadamente das outras.<\/p>\n<p>Numa dessas explos\u00f5es de dignidade que eu conhecia, a minha m\u00e3e recusou. Ela preferiu renunciar \u00e0 boa vontade das obras da par\u00f3quia. E no entanto, j\u00e1 est\u00e1vamos \u00e0 margem dos outros. \u00c9ramos demasiado pobres; \u00e9ramos os &#8220;exclu\u00eddos&#8221; do bairro oper\u00e1rio, unidos ao grupo por esmolas, n\u00e3o por amizade&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9ramos os \u00fanicos. Ainda me lembro da m\u00e3e embriagada e do seu filho natural. Quando chegava a casa \u00e0 noite, encontrava a sua m\u00e3e deitada na cozinha, arrastava-a para a sua cama e colocava-a na cama. Por vezes ele vinha a nossa casa e mam\u00e3e sentava-o \u00e0 nossa mesa, para dividir com ele dar p\u00e3o e sopa opcionais.<\/p>\n<p>Estava tamb\u00e9m a bruxa. Ela n\u00e3o queria que os c\u00e3es ficassem debaixo da sua janela. N\u00f3s crian\u00e7as \u00edamos e urin\u00e1vamos contra a sua parede e ela gritava conosco. E n\u00f3s gost\u00e1vamos dela; foi por isso que a incomod\u00e1mos.<\/p>\n<p>N\u00e3o incomodar\u00edamos o carniceiro R\u00e9tif, nem o carpinteiro Cesbron.\u00a0 Eram os grandes rapazes da vizinhan\u00e7a. Eles n\u00e3o eram do nosso mundo.<\/p>\n<p>Um dia, a bruxa amanheceu morta, de fome, no seu casebre. Havia duas semanas que ningu\u00e9m se preocupava com ela. Nessa noite a minha m\u00e3e chorou, pois o mesmo poderia ter acontecido conosco, &#8211; &#8220;Quem se teria preocupado?&#8221; disse ela &#8220;\u00c9 assim que eu morrerei&#8221;.<\/p>\n<p>Foi ela que me ensinou a lutar, n\u00e3o a vingar a humilha\u00e7\u00e3o, mas para libertar o povo dos exclu\u00eddos.<\/p>\n<p>Um dia, um dos mais velhos da escola &#8211; o seu nome era Sich\u00e9 &#8211; descontou-o num rapaz mais fraco do que ele. Empurrou-o contra a parede da privada, deu-lhe um murro e pontap\u00e9. O que me passou pela cabe\u00e7a? Atirei-me contra ele, e, por minha vez, dei-lhe um murro e um pontap\u00e9. Arranhei-lhe a cara at\u00e9 que o professor veio separar-me dele pela for\u00e7a.<\/p>\n<p>Por que \u00e9 que fiz isso? Aquele rapaz fraco n\u00e3o era nada para mim. Por que deveria eu defend\u00ea-lo? E, no entanto, foi sobre ele que a minha mem\u00f3ria se fixou e n\u00e3o sobre o castigo que ,e acarretou. Fui expulso da escola, mas o que veio depois da luta mal me lembro. O que permanece comigo, como um regresso \u00e0 estrada, \u00e9 este rapaz, v\u00edtima de um Sich\u00e9 mais forte do que ele. Foi, parece-me, o ponto de partida de um combate em que serei derrotado, mas que continuarei teimosamente, at\u00e9 ao fim da minha vida.<\/p>\n<p>Mas tornar-se um combatente dos marginalizados n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil; n\u00e3o se torna um militante para alguns indiv\u00edduos dispersos: uma m\u00e3e embriagada, uma bruxa, um rapaz fraco; um aqui, um ali. Tive de os encontrar como povo, tive de me descobrir como parte integrante deste povo, de me encontrar, como adulto, nestes jovens nas favelas, nos bairros de lata que formam os cintos das nossas grandes cidades, nestes jovens sem trabalho que choram de raiva. Todos eles perpetuam a mis\u00e9ria da minha inf\u00e2ncia e mostram-me a perpetuidade de um povo em farrapos.<\/p>\n<p>Podemos p\u00f4r um fim a esta perpetuidade. N\u00e3o haver\u00e1 mais mis\u00e9ria amanh\u00e3 se nos juntarmos para ajudar estes jovens a compreender a realidade do seu povo, para transformar a sua viol\u00eancia em combate inteligente, para se armarem de amor, esperan\u00e7a e conhecimento, para lutarem contra a ignor\u00e2ncia, a fome, a esmola e a exclus\u00e3o,<\/p>\n<p>Este n\u00e3o pode ser um assunto apenas para os governos: ser\u00e1 um assunto para os homens que aceitam caminhar com os marginalizados, comprometer as suas vidas, deixar tudo, por vezes, para partilhar o seu destino.<\/p>\n<p>T\u00ednhamos apenas a n\u00f3s mesmos para oferecer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A lembran\u00e7a mais long\u00ednqua da minha inf\u00e2ncia \u00e9 de uma longa ala hospitalar, e de minha m\u00e3e gritando ao lado (&#8230;) <a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/uma-crianca-pequena-no-circulo-infernal-da-violencia\/\">Read more <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":3664,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"ep_exclude_from_search":false,"footnotes":""},"categories":[159,187],"tags":[],"class_list":["post-4387","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-other-languages","category-portugues-brasileiro"],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.0 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Uma crian\u00e7a pequena no c\u00edrculo infernal da viol\u00eancia - Joseph Wresinski EN<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.joseph-wresinski.org\/en\/uma-crianca-pequena-no-circulo-infernal-da-violencia\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"en_US\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Uma crian\u00e7a pequena no c\u00edrculo infernal da viol\u00eancia - Joseph Wresinski EN\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"A lembran\u00e7a mais long\u00ednqua da minha inf\u00e2ncia \u00e9 de uma longa ala hospitalar, e de minha m\u00e3e gritando ao lado (...) 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