Tudo veio sempre de uma partilha de vida

– Foi então com os próprios interessados, com os que dele necessitavam, que fundou o Movimento?

– Com quem haveria de ser!? E não pense que eu estava a querer lançar aquela teoria da “participação”. Eu era como eles, pertencia à comunidade deles. Como eles tinha fome, e como eles tinha frio. Eles achavam-me ridículo por não tirar partido da minha situação de padre. Como naquele dia em que eu estava sentado no chão e a mãe dumas crianças veio pedir-me dinheiro. Nada tinha para lhe dar e assim lho disse. Ela virou-se então para as pessoas que passavam e pôs-se aos gritos: «Olhem-me para este padre que não tem um tostão para me dar…» E a um pai que tinha vindo pedir-me carvão, fui obrigado a dizer que eu próprio estava cheio de frio, não tinha carvão nenhum. Ele veio para me bater. Como eu era mais rápido, atirei com ele ao chão; é daí que me vem a fama de ser bom no judo.

Com quem mais poderia eu ter-me aliado? O que eu vivia com aquelas famílias era intolerável para quem quer que fosse. Os casos que lhe estive a contar não aconteciam de vez em quando. A vida era intolerável porque era sempre assim. Durante seis meses, teria sido fácil de suportar, para pessoas vindas de fora; mas durante um ano já não era e, ao fim de dois anos teria havido uma revolta, ou então teriam baixado os braços e ter-se-iam deixado ir a pique com o resto da população. Foi deste meu receio que surgiu uma primeira associação; era uma tentativa para partilhar aquele drama quotidiano. Aliás tudo o que apareceu depois nasceu do mesmo modo, gerado pela própria realidade, por um transbordar de injustiças, pelo medo de ir ao fundo juntamente com o resto da população. Tudo veio sempre de uma partilha de vida, e nunca de uma teoria.

 

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