Um rapazinho…

Um rapazinho dentro do círculo infernal da violência

A mais antiga recordação da minha infância é uma sala de hospital muito comprida e a minha mãe a gritar com a freira que tomava conta de nós. Como eu era uma criança enfezada, com raquitismo, tinham-me levado para o hospital para me endireitarem as pernas. Naquele dia, tinha dito à minha mãe que as Irmãs não me tinham dado o embrulho que ela me tinha mandado no domingo anterior. A minha mãe, que tinha com certeza arranjado com muita dificuldade aquelas pobres guloseimas, ficou furiosa. Arrancou-me imediatamente das mãos das freiras e levou-me para casa. Foi assim que fiquei com as pernas tortas e que durante toda a minha juventude me senti ridículo e tive de aturar as graçolas provocadas por essa deficiência. E o facto de mancar ligeiramente também me incomodou, sobretudo durante a adolescência. Foi também por isso que o primeiro contacto com os outros que me ficou na memória foi marcado por uma injustiça e por um prejuízo que iriam estigmatizar o meu corpo durante toda a minha vida. Talvez seja por essa razão que todos esses narizes ranhosos, essas pernas bambas, esses corpos jovens e já feridos que me rodeiam agora nos bairros sociais, nos barracos, nos bairros degradados, se me tenham tornado insuportáveis. Não me admirou a minha mãe a gritar com a Irmã. Aos gritos, estava eu já bem habituado. Lá em casa, o meu pai estava sempre a gritar. Batia no meu irmão mais velho e a minha mãe ficava desesperada porque lhe dava sempre na cabeça. Também insultava a minha mãe e andávamos sempre cheios de medo. Só muito mais tarde, já homem feito, quando comecei a viver com outros como ele, com outras famílias como a nossa, é que percebi que o meu pai era um homem humilhado. Ele sofria por ter falhado na vida: trazia nele a vergonha de não ter podido dar aos seus nem segurança, nem felicidade. O mal da miséria é este mesmo. Um homem não pode viver assim humilhado sem reagir. E o homem pobre, hoje como ontem, reage da mesma maneira violenta. Mas claro que isso introduzia o rapazinho que eu era no círculo infernal da violência. A violência era a única possibilidade de reagir aos obstáculos, às dificuldades quotidianas de toda a espécie. E sem que disso tivesse consciência,ela estava a tornar-se para mim, como para o meu pai, na maneira de me limpar das inúmeras humilhações que a nossa extrema pobreza nos acarretava. O que me espanta ainda hoje, depois destes anos todos, é que os meus pais só falavam de dinheiro. Eles,que não tinham nenhum, estavam sempre a pegar-se por causa dele. E quando aparecia algum lá em casa, discutiam sobre a maneira de o gastar. Mais tarde, quando a minha mãe ficou sozinha, era também de dinheiro que ela nos falava sempre. E quando nos falava das pessoas que conhecíamos, era sempre para dizer que eram ricas. Os padres da paróquia, dizia ela, «são ricos». Até a pobre merceeira lá do bairro era rica para ela. Mas isto não quer dizer que a minha mãe fosse invejosa. O que acontece é que quando as pessoas têm falta de tudo, só conta aquilo que poderia vir a matar alguma fome. Nos tristes e cinzentos subúrbios que rodeiam as nossas cidades é sempre assim: os interesses, as disputas, as trocas, gira sempre tudo à roda do dinheiro.

Alistaram-me bem cedo neste combate para arranjar de comer. Tinha eu quatro anos e já levava a cabra a pastar. Era essa cabra que nos alimentava, à minha irmãzinha recém-nascida e a todos os outros irmãos. Quando a levava para o pasto, passava diante do portão do convento do Bom-Pastor e, às vezes, uma freira punha-se a falar comigo. Um dia, perguntou-me se eu não queria ir ajudar à missa todas as manhãs. Foi nesse dia que me contrataram pela primeira vez. Pois, para mim, era mesmo de um contrato que se tratava. Se fosse ajudar à missa, iam-me dar cada manhã uma grande tigela de café com leite, com pão, compota, e até com manteiga, nos dias de festa. Além disso receberia dois francos por semana. Foram os dois francos que me convenceram. E aqui está como, antes de fazer cinco anos, comecei eu a encarregar-me da minha família. A minha mãe chamava-me todas as manhãs, durante quase onze anos, para a missa das sete. Levava pelo menos dez minutos para correr até à capela, por detrás dos grandes muros do convento. De Inverno, tinha frio e tinha medo da escuridão. Mas, quer chovesse, quer ventasse, todo encolhidinho, perdido de sono, mas também às vezes cheio de raiva, eu tinha que ir pela compridíssima rua de Saint-Jacques, descer a rua Brault, deserta e hostil, a caminho dos campos, e ir ajudar à missa no convento das freiras, para que elas dessem cinco mil reis à minha mãe. Acho que nunca faltei a este compromisso matinal e tenho ainda hoje a impressão de que toda a minha infância girou à volta dele. Muita fome devia ter a minha mãe para ter deixado que me atirassem, tão pequeno, todos os dias para a rua. E eu devia ter consciência do seu desespero, para ter aceitado aquela servidão, sem ficar definitivamente amargurado e sem me revoltar contra Deus. Aliás, pouco depois, tive que seguir aquele mesmo caminho, ida e volta, à hora do almoço. Como éramos os mais pobres do bairro, não é de espantar que, depois da escola, eu tivesse que correr de novo até ao convento, desta vez para trazer, em lancheiras ou em latas de conserva, as refeições, que consistiam no que comiam as freiras. Ervilhas secas, lentilhas, batatas, às vezes uns bocaditos de carne, era o que me davam as Irmãs Madeleine, juntamente com um pão enorme, que era o que mais nos enchia a barriga lá em casa. Foi assim que todos os dias da minha infância e adolescência foram guiados pela vida das freiras do Bom-Pastor, sustentados pelas suas orações e pela comida que nos davam para não passarmos muita fome. Penso às vezes nisto tudo quando, agora, observo os miúdos que trepam pelas lixeiras acima ou que vão atrás do pai que empurra um carrinho de mão para ir esvaziar uma cave ou um sótão qualquer. Eles fazem de farrapeiros e também recuperam pedaços de ferro-velho; e eu ajudava à missa e ia buscar a nossa comida à porta do convento. Nos dias de hoje, como nos da minha infância, as crianças pobres não têm infância; as responsabilidades caem-lhes em cima logo que aprendem a andar. Mas com certeza que, como acontece com as crianças pobres de hoje, havia alturas em que eu também brincava e ria. Com certeza que arranjava cantinhos e esconderijos muito meus, que tinha os meus próprios percursos, ignorados de todos, nesse velho bairro de Angers, onde com os amigos arquitectava labirintos. O pior era aquele percurso do convento que tinha de percorrer cada dia, o percurso que era a vergonha da minha infância e que apagou da minha memória tudo o que nela me poderá ter acontecido de bom e consolador. E houve outros caminhos e percursos que me envergonhavam, sempre ligados à omnipresente necessidade de comida, omnipresente. Revejo-me, rapazinho ainda, a ter de levar outra vez à mercearia a garrafa de óleo de nozes que pedira que me enchessem com cinquenta cêntimos do dito óleo. Se ela não estivesse cheia até à rolha, a minha mãe obrigava-me a lá voltar para a merceeira acrescentar as duas ou três gotas que faltavam – eterno e humilhante combate dos pobres para tentarem matar a fome. Mais tarde, também tinha que voltar ao talho com os pedaços de carne de cavalo que eram duros demais. É que, aos sete anos, eu já tinha arranjado outro emprego: ia fazer as compras para a Marie-Louise, a mulher do carniceiro, que me pagava dando-me, praticamente todos os dias, dois francos de carne de cavalo. Ora a minha mãe exigia que essa carne fosse fresca e tenra. E nunca hesitava em mandar-me ir lá outra vez para devolver a carne dura e reclamar uma melhor qualidade para a nossa mesa. Sofríamos vergonhas mas, em contrapartida, tínhamos força, e muitas vezes vinguei-me a murro, inconscientemente, daquela servidão esmagadora de ter que alimentar a família. Lembro-me de ter esborrachado, tinha eu seis anos, um adversário do meu tamanho. Quando a minha mãe foi ter com a freira do jardim-de-infância para saber se eu podia ir para a escola primária, ela disse logo. «Pode ir, pode, que ele aqui bate nos outros todos». E foi assim que, desde muito cedo, se conjugaram na minha vida a falta de dinheiro, a vergonha e a violência.

Não me lembro de algum dia ter voltado da escola e de ter encontrado a minha mãe bem-disposta ao chegar a casa. Como tinha sido abandonada, não se conseguia habituar a ter que carregar sozinha com o peso de quatro filhos. E, para além de tudo o mais, as notícias do meu pai que nunca chegavam, nem o dinheiro que ele devia enviar – era isso o mais angustiante. E o gás que era preciso pagar, o carvão a comprar no Inverno, o fogão estragado que era preciso trocar… Tínhamos quase sempre frio lá em casa. A velha forja onde morávamos estava cheia de correntes de ar. O ar passava por debaixo das portas, pelas frinchas das paredes. Uma destas “paredes” era feita de caixotes cobertos de papel de embrulho. Quando o papel se rasgava, o ar entrava e ficávamos transidos de frio. Também tínhamos frio porque todos os apartamentos que ficavam por cima do nosso eram ligados pelo mesmo cano de chaminé. Ora este cano estava sempre a entupir-se, e, quando acendíamos o lume, a Teresa, filha do alfaiate, vinha cá abaixo insultar a minha mãe porque o fumo lhe entrava em casa. Para não criar mais problemas, a minha mãe tirava então do fogão os pedaços de carvão que tínhamos ido buscar aos montes de entulho da fábrica de gás. Esses pedaços de carvão que nos tinham custado tanto a arranjar, e que mais pareciam aumentar o frio lá de casa em vez de o fazerem desaparecer, tão pobrezinhos eram. Será possível explicar esta passividade da minha mãe que volto a encontrar, ainda hoje, tão frequentemente em tantas pobres mães que vivem em lugares miseráveis? Esse seu temor de ficar de mal com os vizinhos vinha, sem dúvida, do seu cansaço, mas, mais ainda, do seu medo. A minha mãe sabia que era estrangeira e vivia sempre com a angústia de que a recambiassem outra vez para Espanha e que a polícia nos viesse apanhar, sabe lá Deus porquê. É assim que todas as mães dos bairros de refugiados vivem sempre aterrorizadas, com a possibilidade de que lhes venham fazer algum mal. Mas, voltando àquela Teresa, filha do alfaiate: uma vez, era eu ainda miúdo, agarrei no ferro de atiçar o lume e ameacei-a aos gritos. Já nem sei o que me ditou nessa altura aquela minha raiva infantil, mas a verdade é que, a partir daí, o nosso pobre lume pôde continuar a arder no velho fogão que tinha a fornalha rebentada, tendo nós que lhe tapar constantemente as rachas com a argila que apanhávamos nos campos das redondezas. A minha mãe passava a vida a queixar-se a toda a gente de tudo o que a consumia. Queixava-se de mim, das preocupações que eu lhe trazia, dizia que eu andava atrasado na escola, que ainda molhava a cama. E isso era mais uma vergonha que me caía em cima. Eu sabia que todo o bairro estava a par das minhas misérias. Os pobres não costumam esconder as suas mazelas, não têm força para dissimular as dificuldades de uma existência que os esgota. No entanto, foi graças à minha mãe que fiz o exame da quarta classe. Naquele colégio onde eu andava, éramos muito poucos os que não pagávamos e éramos também os piores da aula. É por isso que, quando chegaram as provas que marcavam o fim da instrução primária, o director não queria arriscar-se a levar-me ao exame. Já não tinha levado o meu irmão mais velho e a minha mãe não tinha ligado. Mas, quando chegou a minha vez, não se resignou. Ela sabia que eu era esperto, sabia também que eu carregava com responsabilidades demais, com sofrimentos demais e que sofria demais com as injustiças. Pois para nós, que vivíamos da caridade dos outros, mas que nunca recebíamos aquilo a que tínhamos direito, as injustiças eram o pão-nosso de cada dia. A minha mãe não quis que me fosse infligida mais uma. Foi ela que me matriculou e me apresentou ao exame de quarta classe. Só hoje é que fiquei a saber de quanta indignação e de quanta coragem precisou a minha mãe para assim defender os filhos. Também me defendeu, obstinadamente, sem ceder um milímetro, quando as senhoras da conferência, lá da paróquia, resolveram que eu havia de ir para os “Órfãos de Auteuil”. Era um projecto que poderia parecer razoável, mas que era terrivelmente humilhante para as crianças nascidas no meio da miséria e para as mães delas, pois fazia com que elas fossem criadas e educadas pondo-as à margem de todas as outras. Num daqueles sobressaltos de dignidade que tão bem lhe conhecia, a minha mãe recusou. Antes queria renunciar à beneficência das obras paroquiais. Mas a verdade é que à margem dos outros já nós estávamos. Como éramos pobres demais, punham-nos de lado no nosso bairro popular. O que nos ligava aos outros não era a amizade, eram as esmolas. Mas não éramos os únicos. Lembro-me de uma mulher que estava sempre bêbeda e de um filho natural que ela tinha. Quando ele regressava a casa, à noite, dava com a mãe estendida no meio da cozinha, arrastava-a até à cama e deitava-a. Às vezes ia até lá em casa e a minha mãe sentava-o connosco à mesa, dividíamos o pão e a sopa com ele. Havia também a bruxa. Não queria que os cães parassem debaixo da janela dela. Então nós, canalha miúda, servíamo-nos da parede de casa dela como de um urinol e ela insultava-nos. Gostávamos dela, era por isso que a chateávamos. Nunca nos teríamos ido meter com o carniceiro Rétif, nem com o marceneiro Cesbron. É que eles eram as pessoas importantes lá do bairro, não faziam parte do nosso mundo. Um dia, deram com a bruxa morta de fome no barraco. Ninguém se tinha lembrado dela durante os últimos quinze dias. Naquela noite, a minha mãe chorou, que aquilo podia também ter acontecido connosco. «Quem é que se ia importar connosco, dizia ela, ainda hei-de morrer assim.» Terá s do ela quem me ensinou a lutar? Agora já não luto para me vingar das humilhações, mas sim para libertar o povo dos excluídos. Uma vez, um dos maiores lá da escola – chamava-se Siché – enfureceu-se contra um puto muito mais fraco do que ele. Encostou-o à parede das retretes e atacou-o a murro e a pontapé. Que se terá passado comigo? Atirei-me a ele e também o esmurrei valentemente. Arranhei-lhe a cara toda e o mestre teve que me arrastar dali à força. Por que será que eu fiz aquilo? Aquele miúdo fraquito não me era nada, porque é que me terá dado para o defender? Ora foi ele que me ficou gravado na memória, e não o castigo que por causa dele me deram. Fui expulso da escola; mas quase não me lembro das consequências daquela luta monumental. O que ficou impresso em mim como um momento essencial da minha vida foi aquele rapazito que levava pancada de um Siché muito mais forte do que ele. Se me não engano, foi aquele momento o ponto de partida de um combate que talvez perca, mas que prosseguirei teimosamente durante toda a minha vida.

É que isto de combater pelos que foram rejeitados pela sociedade não é assim tão simples. Ninguém se transforma em militante para defender um certo número de indivíduos determinados: uma mãe sempre bêbeda, uma bruxa, um garoto fraquitolas, um fulano aqui, outro acolá. Foi preciso que me apercebesse que eles constituíam um povo, que descobrisse que eu próprio fazia parte desse povo, e que mais tarde, já adulto, me revisse nos miúdos dos bairros de lata da periferia das nossas cidades, nos jovens sem trabalho que choram de raiva. São eles que perpetuam a miséria da minha infância e que me falam da perenidade de todo um povo esfarrapado. Ora nós temos a possibilidade de acabar com essa perenidade. A miséria deixará de existir, um dia, se nos dispusermos a ajudar esses jovens a convencerem-se de que fazem parte de um povo, se os ajudarmos a transformar a violência num combate lúcido, se lhes dermos as armas do amor, da esperança e do saber, para eles poderem levar a cabo a luta contra a ignorância, contra a fome, contra as esmolas e contra a exclusão. E nada disto é só com o governo, pois tudo isto diz respeito a todos aqueles que aceitarem acompanhar os rejeitados, que aceitarem ligar a sua vida à deles e que estiverem dispostos, por vezes, a largar tudo para partilharem a sua sorte.

in “Os pobres são a Igreja”, Conversas do Padre Joseph Wresinski com Gilles Anouil ( Le Centurion, Paris, 1983)

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